terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A escravidão das commodities e a suposta Desindustrialização no Brasil

Nos últimos dois anos, os preços das commodities – produtos básicos essenciais a produção e a sobrevivência humana – tiveram picos sem precedentes. Tal fato deriva de uma grande variedade de motivos, mas em grande parte se deve ao aumento da demanda de países em desenvolvimento, como a China.

Este fenômeno leva a países produtores de tais produtos a intensificar a produção dos mesmos, redirecionando investimentos importantes no setor produtivo de determinado país na produção dos produtos primários que compõem o grupo das commodities. Essa realocação de investimentos para focar em uma pequena gama de setores é preocupante porque pode gerar efeitos deletérios nas economias nacionais, gerando uma “escravidão” na oferta desses produtos com vendas a preços altos.

Entretanto, sabemos que os preços não se mantêm altos para sempre. Isto já é observado desde o fim de 2011, onde houve alguma queda – mesmo que ainda incipiente – da maioria das commodities. Com esta queda, observam-se oscilações nas políticas econômicas dos países que concentram seus ganhos da balança comercial em commodities, como é o caso da Argentina.

Falando em Argentina, o mais famoso economista argentino já falava de um processo parecido com o que ocorre com as commodities de hoje. Raul Prebisch formulou a teoria da relação entre países centro-periferia e do crescimento empobrecedor das economias agrário-exportadoras. Parece que não aprendemos muito com o que Prebisch nos deixou de legado.

As economias, em grande parte, latino-americanas tendem a cair no mesmo erro de focar suas economias aonde o lucro vier mais fácil e rápido. Como, em geral, são países que tem vantagens comparativas em produtos agrícolas e abundantes em commodities metálicas – caso do Chile – acabam por reforçar este efeito com políticas de incentivo a extração e produção destes produtos com baixo valor agregado, que geram poucos elos produtivos em volta de tais setores e exigem mão-de-obra, em geral, menos qualificada do que nos setores produtivos industriais.

Além da dependência da alta destes preços para a manutenção de balanças comerciais positivas, os países exportadores de commodities também se tornam reféns de um mercado especulativo de commodities, que tem se desenvolvido com grande força a partir da crise econômica européia. Isto tem ocorrido em virtude da desalavancagem pela qual passa o mercado financeiro tradicional, focado em ações de empresas, derivativos e etc. Tem havido maior interesse dos agentes – que muitas vezes não entendem nada de commodities - na aplicação de contratos futuros de tais produtos do grupo.

A maioria destes novos investidores no mercado de commodities somente tem interesse na alta de preços e na volatilidade que o mercado tem proporcionado, com contratos futuros de soja, minério de ferro e outros valendo muito mais no vencimento do que na data de início. É um efeito deletério no mercado de commodities que provoca uma volatilidade de preços ainda maior e provoca a alteração no planejamento de produtores de bens agrícolas que tem a maturação dos seus negócios muito maiores do que do ciclo financeiro intrínseco.

Como mais um efeito negativo, as economias dependentes da exportação de commodities tem sofrido com a “supervalorização” de suas moedas frente às moedas de troca internacionais. Este fenômeno tem sido estudado pela academia e foi denominado de commodity currencies. A teoria explicita uma forte correlação entre pauta de exportações concentrada em commodities com valorização das moedas nacionais frente às demais no mundo. Há vários países que podem ser incluídos no caso, como Argentina, Chile e até o Brasil.

Todos esses efeitos prejudiciais observados pela concentração das exportações em commodities leva ao assunto da moda, que é a desindustrialização. Algumas das características básicas do processo desindustrializante são observados nestes países, como a supervalorização das moedas nacionais, a queda da participação da indústria no PIB e a realocação de investimentos produtivos em setores de bens primários.

Entretanto, concluir que há um processo desindustrializante em curso é mais complicado do que parece a uma primeira observação. Vejamos o caso do Brasil: nos últimos anos, temos assistido nossa pauta de exportações perder participação de produtos industrializados e ter aumento na exportação de produtos primários, ou seja, commodities. Porém, ao contrário do que se vê na imprensa, não há uma diminuição na produção industrial, mas sim um maior aumento dos setores extrativos e de produção de bens primários.
Além disso, o Brasil conta com outro fenômeno que leva a uma maior valorização do Real frente as demais moedas que é a entrada de capital externo através do IDE – investimento direto estrangeiro – e o investimento em carteira (ações e títulos). Tal fato parece ser mais relevante, no caso do Brasil, para causar uma valorização da moeda nacional do que a maior participação das commodities na pauta de exportação brasileira.

Ou seja, demonizar a primarização da nossa pauta de exportações deve ir na direção de que devemos desconcentrar a produção de tradeables entre produtos manufaturados, semimanufaturados e básicos também. É óbvio que havendo maiores ganhos em determinados setores, seja em bens primários ou industrializados, haverá maior interesse no investimento nestes.

Portanto, as políticas de governo devem ter como norte a diversificação da pauta produtiva, e não protegendo setores de baixa produtividade que possuem fortes lobbies no governo para se manterem vivos.

A desindustrialização não deve ser mote para o favorecimento de certos grupos produtivos nacionais, como tem ocorrido no Brasil. Tal processo não é comprovado pelos dados e não deve indicar políticas viesadas de governo. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Por que o mundo é refém dos Estados Unidos?


           Enquanto caminhamos para mais um “mergulho” desta última crise iniciada em 2007, continuamos a observar – atônitos – a principal economia do mundo sem nenhuma reação consistente que venha a pelo menos nos indicar algum futuro auspicioso. Os pacotes trilionários de dólares jogados na economia americana, a pseudo reforma do sistema financeiro e a atitude do governo atual americano não foram suficientes para causar algum efeito positivo sobre o “lado real” da economia, ou seja, o setor produtivo que causa todo o dinamismo de desenvolvimento econômico.

             Porém, o mais importante para o resto do mundo é tentar entender e assimilar os porquês das demais economias serem totalmente dependentes de como vai a economia norte-americana. Somos capazes de responder? Vejamos:

1 – Os EUA se endividam na própria moeda que imprimem

                O que isto significa? Significa que o limite para o endividamento é o céu, apesar de pareceres de agências de risco, a oposição republicana não querer aumentar o teto da dívida americana ou o mundo inteiro aconselhar os EUA de que sua dívida está grande demais, o limite para endividamento é, a grosso modo, quando o nosso credor não quer mais nos emprestar. Porém, no caso dos EUA, eles são – em última análise – seus próprios credores, já que imprimem a moeda a qual seus títulos de dívida serão pagos. Infelizmente, o mundo hoje não sabe como lidar com isso e nem está preparado para mudanças neste padrão.

2 – O FED decide quanto vai pagar de juros pelo próprio dinheiro solicitado aos seus credores

                Ora, se eu decido a taxa de juros vigente na minha economia e, mais uma vez, pago tal dívida com o dinheiro impresso por mim, eu decido quanto posso pagar de juros. Por que isto ocorre? Como os EUA são a maior nação econômica do mundo desde os anos 30, o poder de barganha e o padrão estabelecido desde então a partir do uso do dólar como moeda de uso nas trocas internacionais amarram toda a economia mundial às suas determinações. Em suma, as taxas de juros utilizadas pela maioria dos países pelo mundo usam como referencial a taxa de juros americana devido à padronização das trocas internacionais através do dólar.

3 – Os pacotes econômicos de estímulo a economia americana são formas disfarçadas de desvalorização de sua própria moeda para ganho nas trocas comerciais

                Quando um país emite mais moeda e a põe no mercado, o poder de compra oferecido pela moeda diminui, ou seja, há a desvalorização de sua moeda. Se a moeda, como no caso dos EUA, é utilizada como padrão mundial, os produtos produzidos e comercializados pelos EUA ficam mais baratos para serem vendidos ao resto do mundo, causando um aumento no saldo das balanças comerciais e de serviços. O resto do mundo sai prejudicado com o desequilíbrio provocado por um único país (mesmo sendo ele o maior de todos), o que prejudica ainda mais as economias nacionais em um momento de crise e recessão de muitas delas.

                Se não encontrarmos uma saída para essa lógica perversa em um mundo onde temos hoje um equilíbrio de forças econômicas muito maior do que há 50 anos atrás, continuaremos dependentes de um padrão de crescimento mundial através dos Estados Unidos. E se ele não conseguir recuperar seu dinamismo econômico, enfrentaremos um grande período de Estagflação (como nos anos 80) ou, o que parece mais plausível, um período de recessão da economia mundial como um todo.

                  Uma das saídas financeira / monetária discutidas é a criação de uma cesta de moedas para tornar menos dependente a economia mundial de uma única moeda. Talvez assim, os porquês de sermos reféns de um único país sejam amenizados e desapareçam dos noticiários econômicos para entrarem somente para a História.

domingo, 24 de julho de 2011

Inadimplência e bolha imobiliária: há algo de errado?

        Assistimos a dois fenômenos econômicos importantes e preocupantes hoje no Brasil. Logicamente, há quem discorde de que exista uma bolha imobiliária nas principais capitais brasileira - destacando aqui o Rio de Janeiro - e a questão da escalada vertiginosa do aumento da inadimplência no pagamento de empréstimos em geral, que ainda parece disfarçada pela euforia econômica dos últimos tempos, mas que vem se desfazendo através dos contínuos aumentos de taxas de juros e pela política de contenção de gastos do governo.

            Em primeira análise, são dos assuntos desconexos, mas que preferi aliá-los aqui porque os mesmos se complementam em determinada altura na (i)lógica condução  da economia praticada pelos últimos governos no Brasil. Se admitimos termos uma bolha imobiliária importante em algumas das principais capitais brasileiras, sabemos também que tal fenômeno é causado principalmente pela expansão do crédito imobiliário que foi estimulado de forma irresponsável pelo governo até o fim de 2010 através de seus bancos públicos, em destaque a Caixa Econômica.

            Com empréstimos concedidos com duration acima de qualquer média de mercado (30 anos) e com taxas menores também que as de mercado (me refiro aos bancos privados), tal política governamental se utilizou de uma situação conjuntural de calmaria e crédito farto nos mercados internacionais para financiar imóveis que serão pagos em 30 anos, muitas vezes com taxas de juros variáveis e amortizações maiores para o fim do período. Ou seja, foi criada uma bomba relógio que poderá explodir todo o mercado de crédito imobiliário no Brasil nos próximos anos caso a conjuntura internacional não melhore através dos planos de corte de gastos e alongamentos de dívidas que vem sendo praticadas nas economias européias e, quem diria, nos Estados Unidos.

            Tivemos um fenômeno semelhante na época em que existia o chamado Banco Nacional de Habitação – BNH – como o principal financiador de imóveis estatal brasileiro. Com os índices de inflação estratosféricos da época, as parcelas dos empréstimos que também eram subsidiados pelo governo perdiam seu valor real numa economia com 80% de inflação ao mês. O resultado foi a quebra desse sistema gerando um enorme déficit para o Estado brasileiro, indivíduos endividados sem perspectivas para conseguir honrar seus empréstimos e, por fim, uma retração exponencial do setor de construção civil no país.

            Hoje parecemos caminhar para o mesmo fim da história, porém por outros motivos causadores que não a inflação. As modalidades de financiamento estimuladas e subsidiadas pelo governo através de taxas de juros irreais e muito abaixo das de mercado causam a ilusão nos indivíduos de que é possível comprar um imóvel pagando o mesmo em 30 anos com juros baixos. Isso seria verdade se tivéssemos uma estrutura macroeconômica mais estável, onde a variância da taxa de juros básica da economia fosse mais baixa e não se alterasse a qualquer solavanco que nossa economia viesse sofrer. Ou seja, grande parte do aumento no preço dos imóveis de cidades brasileiras como no Rio de Janeiro vem sendo causada pelo estímulo governamental, o que contraria as demais políticas restritivas como o contínuo aumento da taxa de juros básica da economia e os cortes de gastos planejados.

           Como um resultado importante dessas medidas, a inadimplência tem crescido em grande velocidade chegando a patamares alarmantes como o crescimento de 20% de um mês para outro dos índices registrados. Isso mostra em parte a fragilidade das políticas governamentais de crédito praticadas recentemente, dado que não obedecem a lógica de todo o resto da economia que está numa fase de desaceleração interna e de preocupação com o cenário pessimista internacional. Temos a maior taxa básica de juros do mundo de mercado e criamos linhas de crédito com juros muito menores do que a utilizada como referencial para toda a economia produtiva. Se não acabarmos com mais esta distorção teremos grandes problemas em breve.

sábado, 11 de junho de 2011

Taxa de câmbio: vilã ou inocente?

                Nos últimos meses, temos visto críticas estridentes de boa parte dos nossos exportadores reclamando da não intervenção do governo brasileiro na taxa de câmbio, de forma que tornasse a nossa moeda menos valorizada frente ao Dólar. Para nossos exportadores, a política de compra de dólares feita pelo Banco Central nos últimos dois anos deveria ser mantida, o que levaria a termos um preço maior, em Reais, pela aquisição de novos dólares e, por conseqüência, uma moeda menos valorizada.


             Para começar, vamos tentar dirimir a confusão que a imprensa brasileira faz com alguns termos do nosso economês, como taxa de câmbio, moeda, valorização e desvalorização do câmbio. Como dizia um querido professor durante meu período de graduação: “o que se valoriza ou desvaloriza é uma moeda frente à outra, e não a taxa de câmbio”. A taxa de câmbio é uma simples razão entre o preço de duas moedas e, no nosso caso, a mais famosa delas é a relação Dólar / Real. Ou seja, se temos uma taxa de câmbio nesses padrões apresentados com o preço de R$ 1,59, isso implica que para comprarmos um dólar, temos que desembolsar R$ 1,59 da nossa moeda nacional. Isso significa que nossa moeda está valendo menos que o Dólar, o que é perfeitamente natural dado o volume de transações feitas em dólares pelo mundo, o tamanho da economia emissora da moeda – que é os EUA – e a força como padrão de trocas internacionais que o Dólar adquiriu desde os anos 50, no pós-segunda guerra. Portanto, nossa MOEDA tem menor valor em relação ao Dólar, e não o câmbio.

           O empresariado brasileiro, em geral, está acostumado a ter o favorecimento de uma moeda menos valorizada como vantagem para exportação de seus produtos. Por longos anos após a introdução do Plano Real houve uma política de compra de dólares no mercado interno por parte do BACEN para o aumento das exportações, política essa que visava o saldo positivo da balança comercial para compensar nossos saldos negativos da balança de serviços e de nossa conta de capital. Porém, nos dias atuais, tal política chegou a um limite porque a compra de dólares feita pelo BC tem um custo alto, dado que nossa moeda tende a se valorizar ainda mais e também em virtude da nossa alta taxa de juros interna. Nossas reservas internacionais, que são compostas de dólares, estão num patamar muito elevado, o que gera um custo de mantê-las também alto e leva o Banco Central a não ter mais interesse em novas compras desta moeda no mercado.

              Diferentemente do que ocorria até alguns anos atrás, nos dois últimos anos pós-crise financeira de 2008 e após as crises das dívidas européias, o Brasil tem sido um país muito atrativo para o investimento externo em virtude de ter uma economia em expansão, com demanda aquecida, e por remunerar os capitais externos que são investidos em portfólio com a maior taxa real de juros do mundo. Ou seja, temos hoje dois canais importantes de investimento realizados por estrangeiros: o Investimento Direto Externo – IDE – e o investimento em portfólio, ou seja, compra de ações, títulos privados e públicos. A entrada de capitais externos na economia brasileira é estimulada pelo Estado e tem sido fundamental, haja visto que nosso nível de poupança interna é muito baixo para modernizar e criar um novo parque industrial produtivo através de investimentos nacionais. Tal fenômeno tem provocado um saldo positivo de nossa conta de capital, o que praticamente nunca tinha ocorrido na economia brasileira. Hoje a entrada de dólares pelos dois canais tem superado nossa remessa de lucros de multinacionais e demais remessas para o exterior. Portanto, como temos um superávit na Conta de Capital e outro na Balança Comercial com as exportações de Commodities, esses dois efeitos geram pressão para que o Real se valorize frente às demais moedas do mundo, como o Dólar.

Evolução do IDE: médias móveis trimestrais - BACEN

             Este fato dificulta as exportações, já que nossa moeda se valoriza procurando dar equilíbrio à entrada de capitais com as receitas dos produtos exportados e, principalmente, pela massiva entrada de dólares para investimento. Daí vem toda a reclamação de nossos exportadores, que querem manter suas (altas) taxas de lucro a custo de termos uma moeda mais desvalorizada, o que causa efeitos deletérios nos demais setores da economia como a dificuldade em importar qualquer tipo de produto estrangeiro, que são importantes para a maior parte de nossa economia, como é a compra de máquinas e equipamentos importados.

            O já famoso “efeito China” tem provocado uma mudança radical na polarização dos principais players no comércio mundial devido ao grande potencial de exportação daquele país em diversos setores, dos produtos mais simples até os de maior complexidade. A China vem investindo massivamente na construção e atualização do seu parque industrial, investimentos direcionados para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e na qualificação e treinamento de sua mão-de-obra. Infelizmente, o Brasil não tem praticado ações governamentais e privadas nesse sentido, dando somente como desculpa para a queda nas exportações de nossos produtos manufaturados de o Real ter se valorizado em relação ao Dólar. Acrescido a isso, temos a alta de preços de commodities, as quais o Brasil exporta principalmente grãos e minério de ferro, o que gera um maior superávit da balança comercial mesmo com a menor participação dos produtos manufaturados em nossa pauta de exportação. Por mais que nosso governo haja no sentido de desvalorizar nossa moeda, a longo prazo isso não será possível dado a conjuntura de um novo, grande e produtivo exportador mundial. Ou seja, por mais que o BC continuasse periodicamente com a compra de dólares visando desvalorizar nossa moeda, ela se valorizaria no longo prazo.

            Portanto, a culpabilidade direcionada ao câmbio por ser responsável da fragorosa queda das exportações de nossos produtos manufaturados é indevida, dado que o empresariado brasileiro não tem trabalhado de forma a tornar mais competitivos os seus produtos, seja por torná-los mais modernos ou mais baratos através da minimização de custos dos insumos ou, principalmente, por tornar suas estruturas de fábricas e indústrias mais produtivas. O que pode e deve ser exigido do governo é uma política agressiva na escolha dos setores mais prejudicados para que medidas temporárias sejam tomadas, como a menor tributação dessas empresas, linhas de crédito através das instituições de fomento com taxas menores e a defesa dos interesses de tais setores nos diversos fóruns de comércio internacional para que não haja desequilíbrios como as práticas de dumping provocadas pela China, as triangulações comerciais para a fuga de impostos de importação e etc.

            O câmbio deve ser visto como uma simples relação de preços entre moedas que pode demonstrar problemas escondidos, intencionalmente ou não, em determinada economia. A taxa de câmbio pode ser o sintoma de desequilíbrios internos, mas não a causa.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Uma verdade empresarial inconveniente

             Não há quem discorde no Brasil de que temos uma tributação excessiva em quase todos os setores de nossa economia. Isto dificulta o desenvolvimento de qualquer empreendimento por tirar o incentivo do empresário brasileiro em querer produzir e gerar uma cadeia produtiva em torno da sua empresa em virtude dos custos e do risco envolvidos. Porém, não podemos ignorar o fato de que as margens de lucro praticadas na maioria dos setores industriais, de serviços e extrativos (principalmente petróleo) são uma afronta ao consumidor quando comparadas aos mesmos produtos vendidos em outros países. A tributação excessiva não justifica as margens de lucro absurdas praticadas pelo nosso empresariado em geral.

            Em estudos recentes sobre esse tema, foram comprovadas que em países desenvolvidos e também em alguns emergentes (como a China) as margens de lucro na média ficam entre 5 e 15%. Comparativamente, no Brasil, temos uma média de 30 a 40%, já consideradas as paridades de custos e preços (valores em PPP). Há setores, portanto, que extrapolam essa média, o que não é observado em países com o porte e estágio de desenvolvimento que se encontra o Brasil, dando margem para mais esta distorção no nosso background econômico.

         A margem de lucro dos bancos brasileiros talvez seja o exemplo mais conhecido, onde os mesmos conseguem auferir lucros extraordinários, mesmo havendo a concorrência dos nacionais com os bancos estrangeiros. Ademais, tais bancos estrangeiros como – por exemplo - o Santander, que tem sua filial brasileira como a mais lucrativa de todas as suas filiais pelo mundo, consegue ainda lucrar mais aqui do que em a sua própria matriz na Espanha. Isto provoca efeitos deletérios para o balanço de pagamentos brasileiro quando há o envio desses grandes lucros ao país de origem, o que colabora em grande parte para que nossa conta de remessa de lucros no BP seja extremamente deficitária e tenhamos que cobrir com outras participações.

           Tal fato decorre, principalmente, do alto nível de concentração produtiva em diversos setores econômicos brasileiros que são formados por oligopólios. Devido às grandes dificuldades provocadas pelo Estado em estimular a proliferação de um maior número de empresas, a maior parte dos grandes setores da economia acabam tendo poucas empresas produzindo bens similares, o que dificulta a concorrência através da prática de preços menores. Por exemplo, temos somente duas grandes empresas produtoras de cimento, quatro grandes construtoras, quatro grandes bancos e por aí vai. Além disso, temos hoje políticas de Estado visando uma maior concentração de empresas, como são as políticas de crédito praticadas pelo BNDES. O banco de fomento estimula a fusão e a aquisição de empresas maiores de determinado setor com outras menores com o intuito de criar grandes empresas exportadoras e com escala mundial, porém quem sai prejudicado com essa ação é a sociedade brasileira que passa a ter que pagar preços maiores por ter menos opções de escolha entre produtos similares.

          O Estado deveria praticar políticas industriais e econômicas que estimulassem a concorrência entre as empresas e que oferecessem também menores entraves à proliferação de novos empreendimentos. A tributação excessiva e a burocracia para a criação de uma firma no Brasil são obstáculos que beiram a loucura jurídica, o que favorece a manutenção de poucos e grandes grupos empresariais que praticam margens de lucro absurdamente altas (extraordinárias) por serem o que se chama de price setters, devido à concentração de mercado que lhes favorece.

         As organizações industriais como a CNI e a Fiesp provocam a visão do brasileiro de que os produtos custam caro devido aos altos impostos cobrados nas diferentes fases de produção de um bem. É uma meia verdade conveniente para estes, pois as altas taxas de lucro obtidas por eles não podem ser facilmente identificadas, já que não temos a informação de quanto determinado produto custa para ser produzido. A classe empresarial, portanto, se defende de uma forma no mínimo cínica e incompleta para explicar o porquê dos preços praticados.

           Portanto, não podemos ignorar o fato da grande carga de tributos sobre o setor produtivo brasileiro, mas, da mesma forma, devemos cobrar que o empresariado cobre preços mais baixos por seus produtos. Apesar de ter poucas ferramentas para isso, o consumidor deve sempre procurar similares para os produtos adquiridos, a fim de estimular marcas e empresas menos populares. Já o Estado deve se utilizar de políticas que favoreçam a livre concorrência entre empresas e estimulem a criação de novas firmas para o desenvolvimento de setores mais competitivos internamente, visando sempre como prioridade prover bem-estar da sociedade como um todo, e não de pequenos grupos como tem sido a prática conveniente.

domingo, 27 de março de 2011

O esgotamento da política de juros contra inflação

            Após um ano de forte expansão da demanda e, por conseguinte, a terceira maior taxa de crescimento entre as nações mundiais, o Brasil passa mais uma vez pela necessidade de cortes nas despesas governamentais com o principal fim de reduzir a inflação. Os estímulos do governo à reativação da economia após a crise de 2008 se perpetuaram até o fim de 2010, o que estimulou a forte expansão da economia no ano passado.  Ademais, como conseqüência de uma forte expansão de demanda sem a contrapartida de expansão nos investimentos e na diminuição dos gargalos de nossa economia, nos vemos mais uma vez reféns da política de alta de juros para amenizar a aceleração da inflação. Até quando vamos permanecer com uma economia em compasso de anda e pára, “stop and go” no jargão economês?

            O problema das baixas taxas de investimento no Brasil não é novo e continua a ser o principal entrave para uma expansão sem limitações da economia. A iniciativa privada não tem força para gerir os investimentos necessários em infra-estrutura no país e o governo não tem um plano de investimentos sólido e com metas objetivas. O PAC não passa de um programa de grandes obras, onde não há um objetivo claro de destravar o país em setores fundamentais que precisam ser desafogados para permitir uma expansão contínua de nossa economia ao longo dos anos. Com a manutenção dos famosos “gargalos” nos setores que compõe nossa infra-estrutura, temos fases de “espasmos” de demanda que geram expansões pontuais do PIB. Como esses espasmos não encontram resposta pelo lado da oferta através de novos investimentos, os empresários se encontram na posição de aumentarem seus preços para aumentarem seus lucros, dado o excesso de demanda a ser atendido temporariamente, gerando a famigerada inflação.

            Os governos de Lula e, pelo que já parece, de Dilma mantém vozes dissonantes quanto às políticas a serem adotadas para o controle da inflação, o estímulo aos investimentos e a gestão da economia como um todo. Isso reflete na desconfiança que o empresariado tem em contrair dívidas para novos investimentos que podem ser estimulados ou não por políticas contraditórias praticadas pelas diferentes idéias palacianas. O Brasil continua sem objetivos, estímulos e políticas claras por parte do governo para assegurar uma expansão econômica contínua como as que assistimos, extasiados, nos países asiáticos.

            Dado este cenário, para evitar uma tragédia ainda maior, o Banco Central se vê na obrigação de aumentar a taxa básica de juros da economia para frear a inflação. Tal política vem sendo praticada desde 1999, após o fim da âncora cambial, para conseguir romper com o aumento nos níveis de preço da economia. Ela fazia sentido também porque o país passava por crises no seu balanço de pagamentos - dadas as crises seqüenciais ocorridas em 1997 (Ásia), 1999 (Rússia) e 2001 (empresas .com) - e precisava atrair capitais externos para fechar a conta. Porém, conhecemos bem os efeitos deletérios dessas medidas, que desestimulam ainda mais novos investimentos no setor produtivo já que o crédito é fundamental para a criação de novas plantas produtivas.

            Não podemos continuar reféns dessa lógica destrutiva de um país completamente travado por não estimular corretamente os meios que levariam a um crescimento consistente. O governo deve assegurar estímulos e políticas sólidas e contínuas à setores estratégicos da economia que desafoguem os demais, o que permitirá expansão econômica sem o perigo de crescimento da inflação. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os grandes lobbies que levaram à crise financeira de 2008

          O documentário lançado em 2010 sobre a crise econômica financeira de 2008, chamado Inside Job mostra algumas interessantes facetas sobre os porquês do surgimento, manutenção e perpetuidade dos motivos que nos levaram a maior crise econômica desde 1929. E o mais impressionante disso tudo é que as causas - mais que explícitas após o cume da crise em 2008 – continuam sem alterações, tanto nas determinações dos policy makers americanos quanto nas atividades desenvolvidas por bancos, seguradoras e agencias de risco.

            O governo Obama, assim que eleito, tinha a missão de enquadrar as práticas do mundo financeiro que haviam sido desregulamentadas em Wall Street após os fatos mostrarem que houve grandes abusos dos big shots das finanças que agiram, influenciaram e demandaram por maior liberdade no mercado financeiro através de seus representantes inseridos nos governos de W. Bush e do próprio Obama. Infelizmente, o atual presidente falhou em obter uma grande reforma da regulamentação financeira devido aos grandes lobbbies formados por bancos, seguradoras e agencias de risco, obtendo somente uma reforma com pequenas alterações, reconhecidamente ineficiente para evitar a tragédia das conseqüências geradas pela da crise, como o aumento das taxas de desemprego nos EUA e Europa de forma abrupta e superlativa, a perda de ativos financeiros de investidores e poupadores comuns que acreditaram nos bancos americanos por todo o mundo, além do problema das hipotecas nos EUA, que gerou uma massa de cidadãos completamente endividados, sem casa e sem emprego.

            Uma das tônicas interessantes que o documentário aborda e que é inquestionável é a inserção (novamente) de membros dessas grandes instituições financeiras, causadoras de toda a crise, em cargos-chefe do governo americano. Desde os anos 80, cargos como secretário do Tesouro americano, presidente do FED, secretário de finanças, entre outros, vem sendo ocupados repetidamente por grandes personalidades representantes das maiores empresas financeiras dos EUA. Logicamente isso gera um conflito de interesses entre as medidas tomadas por esses representantes do governo, que deveriam zelar por uma maior fiscalizam do mercado financeiro e suas atividades, e suas funções exercidas dentro das empresas que deveriam ser fiscalizadas pelos mesmos.

            A conclusão a que se chega é assustadora por mostrar quem realmente direciona as ações tomadas pelos governos nos EUA, mesmo representando linhas políticas opostas. Os grandes financistas de Nova York determinam através de seu poder de barganha o que o estado americano fará ou deixará de fazer em relação à regulamentação do mercado financeiro. Isso soa panfletário, porém é uma simples constatação dos fatos ocorridos durante a última crise financeira e as anteriores do cenário recente (crise das empresas .com, Enron e etc.). Assim como em outros países (não estamos falando de Brasil aqui, não é?), o Congresso americano e o poder Executivo dos EUA se vêem totalmente influenciados e comandados pelos seus fortes lobbies, principalmente o do mercado financeiro. Apesar de todas as investigações iniciadas nos âmbitos do governo americano, nenhuma chegou a conclusões que levassem culpados a responderem processos e muito menos irem para a cadeia. Os diretores, ceo´s, cfo´s, chairmans continuam atuando da mesma forma no mercado, obtendo milhões de dólares em bônus e gratificações pagas por conseguirem aumentar os lucros de seus bancos, corretoras e demais empresas vendendo títulos ‘tóxicos’ que escamoteiam os grandes riscos envolvidos nos ativos originais.

            Outro ponto espetacular do documentário mostra a ligação entre acadêmicos renomados das melhores universidades dos EUA e o mercado de Wall Street. Muitos deles foram (e são) contratados para escreverem artigos em favor das demandas de bancos, que na época pré-crise queriam uma maior desregulamentação do mercado financeiro. Os artigos escritos a época exaltavam as enormes vantagens dos derivativos financeiros, que transformavam títulos hipotecários em títulos vendidos por bancos de investimento a poupadores que nem sabiam ao que estavam atrelados os tais papéis. O argumento utilizado nos artigos era que o risco de mercado com a criação desses títulos estava sendo distribuído. Realmente o foi, levando milhões de pessoas pelo mundo ao desemprego e nações desenvolvidas a recessões sem precedentes e algumas a bancarrota. É vexatório saber que acadêmicos de algumas das melhores universidades do mundo se prestaram a este papel.

            Como não vimos mudanças substanciais no circo que se transformou o mundo das finanças americano, podemos esperar no futuro por outras crises econômicas causadas por especulações financeiras. Os grandes culpados por fazerem milhões de pessoas ao redor do mundo perderem suas casas, seus empregos e sua dignidade continuam atuando livremente nas grandes firmas de Wall Street. Não há esperanças que isso vá mudar tão cedo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

BC e Fazenda de lados opostos (mais uma vez)

       Apesar da “mudança de governo” proporcionada após as últimas eleições tendo como vencedora a atual presidente Dilma Roussef, parece que as direções do novo governo não irão mudar muito em relação ao anterior, o que por um lado pode-se enxergar como algo positivo. Porém, por outro, é uma pena saber que continuaremos com problemas nas esferas políticas, destacando aqui a simetria de opiniões, ações e discursos entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Em tempos de correções na conduta da economia, é um erro imperdoável que tal situação se perpetue, dada a urgência do nosso país na correção de certas políticas econômicas adotadas indevidamente pelo governo anterior (falo aqui de gastos públicos, obviamente).
      
           A dicotomia entre as duas instituições de nossa República começa pela orientação teórica de Economia que cada órgão tem. Enquanto o BC segue de perto a retórica da economia ortodoxa – utilizada em instituições de ensino como as FGVs e PUC -, a Fazenda tem sua linha de pensamento baseada na heterodoxia econômica, tendo como raiz no Brasil a Unicamp, UFRJ, entre outras instituições de ensino. As duas linhas se dividem, grosso modo, entre combate ferrenho a inflação a qualquer custo – caso da primeira linha – e crescimento econômico a qualquer custo, defendido pela segunda linha. Infelizmente, as ferramentas utilizadas em cada uma dessas linhas teóricas vão de encontro aos princípios básicos da teoria oposta, o que dificulta o entendimento entre as partes na hora de uma decisão comum.

            Porém, tais desacordos deveriam ficar no discurso entre as teorias e não atingir diretamente as decisões de governo nos rumos a serem tomados pela economia brasileira. Não é o que acontece. Recentemente, vimos o novo presidente do BC defender uma meta menor de inflação para o país, argumentando que dada uma contínua estabilidade econômica – como vem ocorrendo – é possível e benéfico para o país ter uma meta de inflação mais alinhada aos padrões internacionais, o que possibilitaria uma queda na taxa de juros já que a rentabilidade líquida nas aplicações teria maior segurança nas menores perdas que taxas menores de inflação proporcionariam.

            A opinião declarada pelo Ministério da Fazenda é totalmente contrária a essa medida indicada pelo BC, com o argumento de que aumentar o combate a inflação prejudicaria o nível de crescimento econômico do país e poderia provocar uma interrupção na trajetória de expansão que vem sendo observada no pós-crise de 2008, prejudicando os investimentos produtivos feitos nos últimos anos.

            Ambos os argumentos para a implantação ou não da medida indicada pelo BC são válidos, porém não se pode admitir que duas das mais importantes instituições do governo tenham posições contrárias na condução de uma mesma política econômica, o que só pode gerar atrasos e solavancos em um país que necessita de um projeto de longo prazo visando um mesmo objetivo.

            A atual presidente deve atentar para este fato e entender que enquanto durarem essas vozes dissonantes no núcleo econômico do governo, todos nós perderemos com uma clara falta de objetivo comum e de um projeto para o Brasil. A culpabilidade dessa questão deve, sim, ser direcionada ao cargo mais alto da esfera pública brasileira, que mais uma vez já se mostra incompetente em unificar idéias e discursos em torno de um único objetivo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Fim do Euro: solução óbvia?

              Após a crise financeira mundial de 2008 e mais recentemente após a crise das dívidas dos PIGS, não há mais consenso na Europa sobre a utilização do Euro como moeda comum entre os países que aderiram desde quando ela foi implementada como opção às moedas nacionais. Na época, os benefícios trazidos por uma moeda comum pareciam óbvios: os ganhos de escala nas exportações nacionais onde os países fossem mais eficientes (de acordo com os modelos de comércio internacional tradicionais: Ricardiano e Heckser-Ohlin); o maior poder de barganha nas negociações junto aos Estados Unidos e com os demais blocos econômicos mundiais; e a maior integração da União Européia com o ganho do último estágio de avanço em um bloco econômico que é a criação de uma moeda comum, onde pessoas e produtos transacionam com uma facilidade muito maior.  

                Entretanto, mesmo antes da última crise, já eram observados efeitos deletérios gerados pelo uso da moeda comum. Os países com renda per capita e PIB menores viram-se com problemas em seus balanços de pagamentos (nada comparado ao que temos hoje) e houve o começo de uma forte migração de oferta de trabalho dos países mais pobres para outros mais ricos que pagavam melhor pelas mesmas funções exercidas pelos trabalhadores. Daí desencadearam-se problemas sociais como processos de xenofobia, sendo apoiados muitas vezes pelos partidos políticos de direita que viam seus países inundados de mão-de-obra estrangeira aceitando menores salários para os empregos oferecidos.

                Com a crise, tais efeitos se amplificaram e trouxeram outros novos como o surgimento de déficits públicos colossais, atingindo em alguns países cerca de 50% do PIB nacional. Os títulos usados para financiamento das dívidas nacionais dos países com as economias mais expostas ao ambiente externo tiveram seu valor de mercado levado ao fundo do poço, obrigando os tesouros nacionais a oferecerem altas taxas de juros para a nova rolagem de tais títulos e da dívida pública como um todo. Com isso, a confiança do investidor em geral nos países mais frágeis da zona do Euro diminuiu e a rolagem das dívidas públicas nacionais tornou-se inviável. Foi necessária a “intervenção” (injetando dinheiro) do BCE, oferecendo divisas para os países em situação difícil, mas exigindo – ao mesmo tempo – em troca um plano de austeridade fiscal nas contas nacionais, o que nunca é bem visto pelos Parlamentos nacionais, principalmente nos partidos de oposição aos governos.

                Tal situação leva a análise e culpabilidade quase óbvia do uso de uma moeda comum, valorizada em relação ao dólar e em relação às demais moedas no mundo. Se ainda fossem usadas as moedas nacionais na zona do Euro, uma simples desvalorização na moeda local levaria à uma zona de conforto imediata no país onde houvesse problema no pagamento e rolagem da dívida pública. Porém, sabemos dos efeitos negativos que tais desvalorizações causariam como o crescimento da inflação e – mais a frente – um aumento no desemprego. Entretanto, como a situação fiscal em alguns países parece insustentável, a opção pelo fim do Euro ganha força na Europa como um todo, apesar dos maiores membros da UE (usuários do Euro como moeda) – França e Alemanha – mostrarem forte relutância por esta opção. Por serem os maiores PIBs da zona do Euro e por terem seus balanços comerciais superavitários com seus parceiros comerciais, há o apoio na manutenção da moeda comum mesmo dada a situação de crise.

                Parece que o limite para a extinção ou não do Euro está na disposição do BCE e do FMI em emprestarem divisas para sanar temporariamente o problema dos endividamentos dos países europeus. Se os planos de austeridade forem de fato implementados pelos governos nacionais conforme exigidos pelos credores e havendo posteriormente uma fase de crescimento econômico dos países em dificuldade, as dívidas tornariam-se novamente solventes e o Euro teria sobrevida. É o caminho que tem sido trilhado por Grécia e Irlanda, que tiveram os planos de austeridade aprovados e estão em curso.

                Uma questão que tem sido esquecida pelos entusiastas do fim do Euro como moeda comum é o poder de barganha oferecido pelo seu uso frente às transações no comércio mundial com as grandes potências mundiais, como os Estados Unidos e a China. Operando em bloco com uma mesma moeda, a Europa tem ganhos de escala e eficiência na produção e exportação de seus produtos mais competitivos, favorecendo individualmente o país da UE que tiver melhores condições de produção de determinado produto. Se não houvesse uma moeda comum, haveria naturalmente maiores desequilíbrios nas transações comerciais devido aos diferentes valores de suas moedas nacionais, o que seria uma perda para o bloco econômico como um todo. Isso acontece hoje, por exemplo, com o Mercosul, que tem o Brasil com uma moeda extremamente valorizada frente aos demais países integrantes do bloco.

                Portanto, todo o esquema nas transações comerciais entre países da zona do Euro com o mundo teria que ser repensado com o retorno das moedas nacionais, o que certamente levaria a um retrocesso nas economias dos países integrantes e o bloco econômico europeu perderia força nas negociações internacionais em um campo onde – não podemos esquecer - a China vem ganhando território frente às demais potências mundiais. Isso deve ser uma preocupação constante e uma variável a se examinar em uma possível escolha pelo fim da moeda comum.

                Em suma, a questão em torno da extinção do Euro deve conter nuances que não vem sendo observadas pelos maiores entusiastas pelo fim da moeda comum. O apelo pelo seu fim parece ser o caminho mais óbvio - dada a primeira grande crise econômica após sua implementação - para a resolução de problemas estruturais nas economias nacionais da Europa. Talvez seja a primeira grande crise de outras futuras a entrar para a história do Euro se forem encontradas outras soluções que não sejam a de sua extinção, como apontadas anteriormente. Afinal, “a maior crise econômica é aquela que ainda não aconteceu”.

domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra de moedas ou incoerências entre teoria e prática econômicas?


            Assistimos agora pelo mundo a corrida pela desvalorização de moedas, em uma tentativa dos países de conseguirem gerar superávits comerciais em seus balanços no “pós” (será?) crise financeira de 2008. No entanto, indo além dessa medida, alguns países que utilizam esse método para auferir ganhos não recomendavam tal medida como política a ser usada em suas cartilhas econômicas. Vemos como exemplo, os Estados Unidos emitindo freneticamente dólares para tentar reativar sua economia, medida sempre condenada por tal país na condução econômica recomendada mundialmente por seus policy makers mesmo diante de alguma crise econômica.

            A justificativa principal utilizada pelos EUA é a tentativa de sair da crise financeira que afetou visceralmente seu sistema econômico. Com alto nível de desemprego, baixo crescimento, e uma dívida pública explosiva, o país se mostra encurralado diante da crise passada e por ver aumentada sua dependência em relação a China, seu principal credor e um dos maiores importadores de seus produtos. O país ainda reclama da desvalorização artificial feita pela China em sua moeda, o que gera maiores déficits para os EUA que também são grandes importadores da mais variada gama de produtos chineses. Porém, os Estados Unidos sempre mantiveram o discurso de que seria irresponsável um país emitir moeda para tentar ativar uma recuperação econômica. É no mínimo interessante ver o grande difusor dos preceitos econômicos clássicos utilizarem-se da medida que os mesmos recriminam ao longo de décadas.

            As justificativas possíveis para o fato é o ambiente de crise econômica vivida hoje principalmente pelos países desenvolvidos. A quebra de instituições financeiras americanas ditas sólidas na crise passada assustou até os mais crentes no sistema financeiro atual. Ademais, na seqüência vieram a recessão econômica na Europa e as crises das dívidas, como da Grécia e do grupo dos PIGS.

             A diferença fundamental entre o posicionamento diante da crise de EUA e Europa são as medidas econômicas utilizadas. Enquanto na Europa pacotes de austeridade fiscal se proliferam entre seus integrantes, os Estados Unidos aceleram seus gastos e tornam sua taxa real de juros praticamente negativa com a inundação de liquidez em seus mercados. Onde estão os preceitos econômicos defendidos e não mais utilizados pelos EUA? O famoso ditado popular – “no ganho somos capitalistas e na perda somos socialistas” – parece ser a única moral da estória possível para a contradição entre a teoria e prática econômicas norte-americana.

            Enquanto as medidas de austeridade fiscal são utilizadas na Europa – o que reza a teoria Clássica, mesmo sabendo dos efeitos maléficos provocados (desemprego e recessão) -, os EUA se distanciam da lógica econômica clássica e tentam sair da crise com medidas reconhecidamente “keynesianas”. A questão da guerra cambial e as ameaças dos EUA à China neste respeito são meros blefes na tentativa de recuperação de sua economia e a manutenção da hegemonia mundial. Talvez seja o que restou aos norte-americanos como grito de sobrevivência pela liderança econômica que está sendo ameaçada pelo dragão chinês.

            Entendo que os EUA para ter maior sucesso em sua recuperação econômica precisam ter mais coerência entre a teoria e a prática no campo econômico. É fundamental um ajuste fiscal, como feito hoje pela Europa, na economia americana para dar confiança aos investidores daquele país na busca da recuperação de solidez econômica para que seja possível sua manutenção na liderança do ranking mundial. Parece que as ferramentas utilizadas – aumento de gastos e taxa de juros baixa – não vem surtindo o efeito desejado. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A bipolarização política e temática das eleições

            Parece que vivemos o pior período eleitoral dos últimos 30 anos. Vemos dois pólos argumentarem de formas diferentes com os mesmos motivos para se elegerem. Isso poderia ser um bom caminho se não gerasse a simplificação das diferenças entre esses dois pólos nos assuntos aborto e privatização. As nossas demandas para os nossos futuros representantes públicos por mais, no mínimo, 4 anos se resumem à estes dois assuntos citados anteriormente. Será que realmente nos interessa saber se os candidatos postos no certame eleitoral da vez levam como bandeiras principais dos seus programas de governo a questão do aborto e da privatização?

                Acredito que é importante dizer que os dois temas são postos como defeitos do lado oposto. Privatização e aborto são “males” que devem ser repudiados pela sociedade brasileira, como se fossem temas postos por um representante de Lúcifer na terra. Pelo contrário, esses temas são importantes e devem ser discutidos nos diversos fóruns que a sociedade dispõe para um possível ponto de convergência.

                A privatização se mostrou fundamental em diversos setores da economia brasileira, como o da telefonia. A partilha feita em leilão pelas diversas empresas privadas interessadas em desenvolver o setor de telecomunicação foi o que provocou o avanço de tecnologia, gerando a possibilidade que temos hoje de milhões de brasileiros portando uma e, às vezes, duas linhas de telefone celular. Com o estímulo a concorrência de empresas privadas no setor, foi possível multiplicar a existência de linhas telefônicas que permitiram uma maior integração do nosso país como um todo, onde temos a facilidade e o baixo custo em termos um meio de comunicação com alta tecnologia assim como nos países desenvolvidos, o que serve de ponto de convergência com tais países. Isso não teria ocorrido se o Estado continuasse com a política de desenvolver “estrategicamente” tal setor, assim como foi com o de informática durante os anos 70 e 80.

                Porém, não podemos aceitar falácias a partir disso, dizendo que tal governo, se eleito, irá continuar com a privatização dos demais setores da economia brasileira, como se fosse possível gerar uma panacéia deste exemplo para os demais temas que envolvem a economia. O exemplo mais atual disso é dizer que o tal governo, se eleito, irá privatizar o pré-sal. Ora, mal temos tecnologia (incluindo os demais países) para saber como extrair petróleo de tal profundidade. Como alguém pode afirmar sobre a privatização de algo que não existe?

                A questão do aborto já envolve conceitos arraigados à nossa população, que tem reflexos na religião, principalmente a Católica. É irônico, porque tendemos para uma população onde a taxa de natalidade cai vertiginosamente para índices apresentados nos países já desenvolvidos, mas não conseguimos discutir de forma madura este tema. A temática do aborto deve ser levada em consideração num país que almeja ser desenvolvido, onde a população tem conhecimento para discernir as particularidades que envolvem a questão. Talvez aí esteja o problema: não temos uma população preparada - educacionalmente e psicologicamente - para discutir um tema desta importância, onde setores da sociedade são influenciados por organizações com intenções das mais diversas possíveis, como as do tipo políticas e religiosas, onde o cidadão analfabeto, mal instruído e mal educado tem lugar cativo.

                Portanto, não devemos também dirigir o nosso voto para quem é a favor ou contra o aborto. Isso seria a simplificação vergonhosa de um ato fundamental para nossa jovem democracia.

                Devemos eleger aquele que reunir um maior número de projetos de governo com os quais nos identificamos e estamos de acordo. Não devemos, jamais, simplificar nossa escolha por um único tema, seja ele qual for. Façamos a prática tão incomum ao brasileiro de pesquisar, discutir e entender cada projeto de governo desenvolvido por essa bipolarização política, através de todo o tipo de informação que nos for disponível. Temos até o dia 31 de outubro pra fazermos isso.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tolerância e a busca por dias de paz

             É impressionante a infinidade de formas pelas quais o ser humano tenta fugir da realidade para transformá-la em algo mais palatável aos seus desejos. Vi um filme hoje que me impressionou muito e me levou a escrever este artigo. O filme fala, basicamente, de conseguir avançar e voltar no tempo para corrigir situações e fatos que nós gostaríamos muito que fossem diferentes do que ocorreu de fato.

            Parece claro o entendimento das pessoas de que o mundo não vai bem e que as coisas deveriam ser diferentes. Porém, isso não leva as pessoas a lutar para tentar mudar suas realidades. Leva, sim, à criação mental de mundos ideais, onde tudo aconteceria conforme nossos desejos individuais. Acredito que isso é um problema grave dos nossos dias, onde preferimos ficar presos à ilusões perfeitas da nossa individualidade, em detrimento da aceitação de uma realidade onde as coisas não são como queríamos, mas onde poderíamos criar um ambiente real e próximo das nossas vontades.

            A principal forma de fuga da realidade é a alienação. Nos mantemos dentro do nosso próprio mundo onde podemos controlar a maioria dos fatos e situações, e, principalmente, conseguimos afastar os acontecimentos e revezes da vida que gostaríamos de não incluir na nossa estória.  Isso acaba levando a um isolamento da realidade e a um distanciamento das pessoas e dos fatos ocorridos. E daí deriva todo o problema. Quanto mais nos prendemos no nosso mundo, as diferenças entre as pessoas vão aumentando de forma que um indivíduo simplesmente não aceita (e não respeita) a individualidade do outro. Passamos a pensar que “o mundo está louco”, “as pessoas perderam a razão” ou coisa do tipo. Nada disso.

            Provavelmente a solução para isso viria de uma atitude conhecida por todos, mas cada vez menos praticada: tolerância. Não somos tolerantes com a família, com amigos e nos demais tipos de relacionamento que mantemos. Imagine com estranhos.  A tolerância perde seu espaço para vaidades individuais e principalmente para o medo que temos de não acharmos o nosso “lugar” ou a nossa verdade (?), de não conseguirmos nos auto-afirmar e não aparecermos como destaque nos círculos de relacionamento pessoal. Como exemplo clássico de intolerância no mundo, temos todos os atuais problemas religiosos envolvendo povos e países que se dizem estar em “guerras santas” (incluindo nesse bolo os Estado Unidos). A lei (isso mesmo, LEI) que proíbe muçulmanas de usarem a Burca na França é um símbolo do grande absurdo do mundo de intolerâncias que vivemos hoje.

            Só teremos dias de paz se conseguirmos superar o momento atual de intolerância geral entre as pessoas. Devemos lutar pela maior aceitação das diferentes idéias, atos e costumes de cada indivíduo e entender que isso trará benefícios a nós mesmos. Infelizmente, parece que estamos bem longe disso.

sábado, 2 de outubro de 2010

O sonho do emprego público: um desperdício de talentos

          Como todos sabem, no Brasil de hoje (e de muito tempo) o maior sonho da maioria de formandos em qualquer graduação de ensino superior é tornar-se funcionário público. Este sonho tem se propagado em nossa sociedade que vê um emprego na iniciativa privada como algo passageiro, onde não se pretende ficar por muito tempo devido ao risco de ser demitido ou de trabalhar em demasia, coisa que não aconteceria na boa (?) carreira de funcionário público. Vejo isso como um risco ao desenvolvimento e avanço intelectual do nosso país. Nossos maiores “cérebros” objetivam trabalhar em instituições públicas, reconhecidamente contraproducentes para uma economia capitalista de mercado.

            Um dos possíveis motivos para o aumento desse desejo entre os formandos é a alta concorrência para a contratação por empresas privadas. Os processos seletivos promovidos pelas firmas são extensos e exigem diversas habilidades dos candidatos além daquelas imaginadas para o cargo, como desenvoltura, pró-atividade e etc. Isso faz parte da vida de qualquer profissional em todas as partes do mundo, porém como o Estado brasileiro não estimula a iniciativa privada como deveria, tais candidatos se sentem desprotegidos mesmo quando conseguem o tal emprego, preferindo estudar para concursos públicos mesmo que sejam cargos os quais eles nem exercerão alguma atividade ligada ao que foi aprendido ao longo de, em média, quatro ou cinco anos de faculdade. Estamos falando aqui de talentos desperdiçados por uma realidade no mercado de trabalho totalmente distorcida, onde as empresas privadas são o bicho papão e a iniciativa pública é a mãe que sempre recebe mais um filho em sua casa.

            Talvez a maior justificativa para se desejar um emprego público é a da quase impossibilidade de demissão. Num país com o histórico de economia instável, altas taxas de desemprego e um mercado de trabalho muito mais exigente na iniciativa privada, essa impossibilidade torna-se um sonho para a maioria dos novos trabalhadores. Isso gera um enorme desvio de profissionais competentes e capacitados para uma série de atividades em órgãos públicos que não estimulam, não precisam e não desejam profissionais com tantas habilidades. Há um enorme perigo neste fato para o desenvolvimento econômico, social e intelectual do nosso país. Está se atraindo os melhores profissionais - formados nas melhores universidades muitas vezes - para empresas que não contribuem como deveriam para a sociedade, empresas essas totalmente contraproducentes como já é sabido quando necessitamos de um serviço público qualquer.

            Precisamos urgentemente modificar este quadro assustador. Se temos uma economia capitalista de mercado, devemos estimular o empreendedorismo e a maior empregabilidade de nossos novos talentos nas empresas privadas, onde há meritocracia e estímulo de toda a parte para a inventividade e o interesse de todas as habilidades do novo profissional. Não podemos continuar premiando a ineficiência de um Estado com órgãos públicos ineficientes, onde um “cabide” de emprego é o sonho de uma massa de novos trabalhadores bem formados.

            Se não corrigirmos logo esse direcionamento, corremos o risco de nos atrasarmos ainda mais no progresso econômico, social e, principalmente, intelectual, onde os mais talentosos não vêem estímulo para exercerem sua criatividade, inventividade e o aprendizado absorvido após longos e difíceis anos de estudo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Um país sem fiscalização

           
            Ainda não aprendemos no Brasil o significado da palavra fiscalização. Não sabemos denunciar, cobrar ou acionar os órgãos fiscalizadores nos diversos desmandos que percebemos nas nossas rotinas diárias. Nas mais variadas esferas das instituições públicas e privadas, não somos capazes de criar e administrar órgãos fiscalizadores que exijam o que está previsto em lei ou é exigido em contratos. Parece ser mais uma chaga arraigada à nossa cultura, que atravessa os séculos e da qual não conseguimos nos livrar.

            Exemplificar este problema no nosso país é mais fácil que andar pra frente. Podemos começar pelo órgão fiscalizador da lei, o mais importante de todos, que é a polícia. Não deve haver paralelo no mundo inteiro para que possamos comparar com outra polícia que seja tão ineficaz, ineficiente e incompetente quanto às polícias militares e civis do Brasil. Os índices de crimes, casos e queixas solucionadas pelos policiais são baixíssimos, o que só estimula a mais violência ainda, gerada pela impunidade que a má fiscalização da lei proporciona. Indo mais longe, podemos relacionar este problema do desserviço prestado pela polícia se ramificando até a justiça, que julga mal e errado devido ao péssimo trabalho feito por policiais mal pagos, incompetentes e corruptos. Não pode sair boa coisa daí.

            Partindo do exemplo da polícia, podemos enumerar infinitos órgãos e instituições que servem para algum tipo de fiscalização, porém não atendem os requisitos mínimos de suas funções. Vigilância sanitária, fiscais da Fazenda, fiscalização ambiental e as famosas agências reguladoras - que deveriam fiscalizar e punir as empresas que operam em concessões públicas como as de telefonia, transporte e saúde - simplesmente não o fazem, por incompetência e má gestão das suas funções.

            Esse fato decorre principalmente devido ao alto nível de corrupção existente na maioria desses órgãos. Além dos problemas que conhecemos no exercício dessas fundamentais funções – como baixos salários, desincentivo ao longo da carreira pelo imobilismo nos órgãos públicos e etc. -, acredito que haja no brasileiro uma ligação cultural com a corrupção. Digo cultural porque mesmo quando o cargo do órgão fiscalizador oferece um bom salário – como o de policial federal e fiscal da Fazenda – vemos repetidos casos de corrupção acontecendo, o que não pode ser justificado pela má remuneração que sempre é usada como motivo para tal.      

            Os velhos hábitos populares arraigados na nossa cultura como o de “ser mais esperto”, de “passar os outros pra trás” e o do famoso “malandro” continuam imperando mesmo nas classes mais instruídas e de maior poder econômico, que dão o mau exemplo para o resto da população. Talvez esse seja o principal problema a ser combatido se queremos ter órgãos fiscalizadores que funcionem e que exerçam seu poder para termos uma democracia de fato, onde as instituições servem para proteger os cidadãos e não somente como “cabides” de emprego público.

            Como sociedade, temos também a obrigação de fiscalizar tais instituições tão importantes para um país que queira realmente ser uma democracia. Se a lei não é cumprida ou se as determinações impostas por um órgão fiscalizador aos serviços prestados por determinado tipo de empresa não são atendidas, então temos um problema grave a ser resolvido. E é isso que ocorre hoje no Brasil com as instituições fiscalizadoras.      

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma nova classe política

Mais uma vez vemos o pleito das eleições bater à nossa porta psicológica e sempre temos os mesmos questionamentos. Como cidadãos (ou algo parecido com) tão desprovidos de qualquer virtude que um político deveria ter, podem chegar a estampar sua face no programa eleitoral? Por que elegemos tais figuras as quais não nos identificamos nem pela língua, já que muitos mal sabem falar?

Essas mesmas perguntas circulam em nossas cabeças a cada eleição porque não sabemos como incentivar e criar uma nova classe política que pudesse nos satisfazer minimamente como nossos representantes nas casas republicanas, que representam nossa tênue democracia.

Concordo com Zuenir Ventura, que escreveu hoje no O Globo, dizendo que prefere uma democracia com candidatos dessa estirpe do que qualquer regime totalitário. Porém, acredito que enquanto não exigirmos mais que isso, não sairemos desse atoleiro político, provocador de tantos outros atoleiros (saúde, educação, segurança e outros milhares).

Precisamos saber como incentivar cidadãos doutos, cultos, intelectuais, conhecedores dos problemas de suas regiões, artistas (de verdade), empresários, estudantes – entre outros - para a vida política. Mostrar que o Brasil continua no Marco zero quanto à qualidade dos indivíduos escolhidos por nós e empossados com tamanho poder, benesses e regalias e que, enquanto isso acontecer, nossos imbróglios seculares não serão resolvidos por nenhum salvador (seja ele Dilma, Serra, Marina e os demais da vez). Nossa cultura latina tem paixão por líderes, mas a História mostra que – em sua maioria – líderes que governam sozinhos cometem grandes barbaridades e descaminhos à seus povos (ninguém falou aqui de Hugo Chávez, não é?).

A busca por cidadãos virtuosos para nos governar deveria ser a obsessão de qualquer democracia. Sabemos que no mundo inteiro há pessoas desqualificadas nos quadros políticos, porém no Brasil isso me parece gritante (ou você gosta do Tiririca, Romário ou mulher melão como candidatos?). As elites brasileiras (sem conotações, por favor) parecem não mostrar mais interesse em adentrar os cargos políticos. Acreditam ser mais fácil financiar, controlar e eleger um candidato com perfil popular – quem irá atender às suas demandas – pois terão mais apelo à população em geral na hora da votação.

Nosso país tem que conseguir superar essa visão do Lula, um operário, no poder. Sem dúvida, isso foi uma enorme vitória para nós brasileiros, mas não podemos ter cidadãos como Lula para discutir temas que exigem instrução, cultura e conhecimento das infinitas áreas que envolvem as decisões políticas de governo. O que seria do Lula sem os técnicos, os Doutos, os especialistas? Precisamos de especialistas, de técnicos, de doutores, enfim, de pessoas bem formadas para atuarem nestes cargos políticos. Pessoas essas que já compõem qualquer tipo de empresa (inclusive as públicas), sendo de fundamental importância para o aumento do índice de decisões certas tomadas sobre qualquer tema.

É claro que o jogo político não permite a inserção somente de pessoas com habilidades técnicas para governar. As coligações partidárias, oposições e os demais movimentos políticos contam com a troca de favores, o fisiologismo que sabemos como funciona. Mas precisamos diminuir esse tipo de contingente nas câmaras, assembléias e demais casas republicanas. Só há essa solução para atravessarmos a barreira do ridículo, vexatório e do repugnante quadro de candidatos políticos que temos (em sua maioria, obviamente).

Que este ano seja o último certame eleitoral para esses cidadãos que não demonstram possuir nenhuma virtude de interesse da população para o cargo político que virão a ocupar. E, enquanto isso acontece, que saibamos extrair a fina flor dos indivíduos mais preparados para exercerem as funções mais importantes para todos nós, nosso filhos e nossa pátria.