domingo, 24 de julho de 2011

Inadimplência e bolha imobiliária: há algo de errado?

        Assistimos a dois fenômenos econômicos importantes e preocupantes hoje no Brasil. Logicamente, há quem discorde de que exista uma bolha imobiliária nas principais capitais brasileira - destacando aqui o Rio de Janeiro - e a questão da escalada vertiginosa do aumento da inadimplência no pagamento de empréstimos em geral, que ainda parece disfarçada pela euforia econômica dos últimos tempos, mas que vem se desfazendo através dos contínuos aumentos de taxas de juros e pela política de contenção de gastos do governo.

            Em primeira análise, são dos assuntos desconexos, mas que preferi aliá-los aqui porque os mesmos se complementam em determinada altura na (i)lógica condução  da economia praticada pelos últimos governos no Brasil. Se admitimos termos uma bolha imobiliária importante em algumas das principais capitais brasileiras, sabemos também que tal fenômeno é causado principalmente pela expansão do crédito imobiliário que foi estimulado de forma irresponsável pelo governo até o fim de 2010 através de seus bancos públicos, em destaque a Caixa Econômica.

            Com empréstimos concedidos com duration acima de qualquer média de mercado (30 anos) e com taxas menores também que as de mercado (me refiro aos bancos privados), tal política governamental se utilizou de uma situação conjuntural de calmaria e crédito farto nos mercados internacionais para financiar imóveis que serão pagos em 30 anos, muitas vezes com taxas de juros variáveis e amortizações maiores para o fim do período. Ou seja, foi criada uma bomba relógio que poderá explodir todo o mercado de crédito imobiliário no Brasil nos próximos anos caso a conjuntura internacional não melhore através dos planos de corte de gastos e alongamentos de dívidas que vem sendo praticadas nas economias européias e, quem diria, nos Estados Unidos.

            Tivemos um fenômeno semelhante na época em que existia o chamado Banco Nacional de Habitação – BNH – como o principal financiador de imóveis estatal brasileiro. Com os índices de inflação estratosféricos da época, as parcelas dos empréstimos que também eram subsidiados pelo governo perdiam seu valor real numa economia com 80% de inflação ao mês. O resultado foi a quebra desse sistema gerando um enorme déficit para o Estado brasileiro, indivíduos endividados sem perspectivas para conseguir honrar seus empréstimos e, por fim, uma retração exponencial do setor de construção civil no país.

            Hoje parecemos caminhar para o mesmo fim da história, porém por outros motivos causadores que não a inflação. As modalidades de financiamento estimuladas e subsidiadas pelo governo através de taxas de juros irreais e muito abaixo das de mercado causam a ilusão nos indivíduos de que é possível comprar um imóvel pagando o mesmo em 30 anos com juros baixos. Isso seria verdade se tivéssemos uma estrutura macroeconômica mais estável, onde a variância da taxa de juros básica da economia fosse mais baixa e não se alterasse a qualquer solavanco que nossa economia viesse sofrer. Ou seja, grande parte do aumento no preço dos imóveis de cidades brasileiras como no Rio de Janeiro vem sendo causada pelo estímulo governamental, o que contraria as demais políticas restritivas como o contínuo aumento da taxa de juros básica da economia e os cortes de gastos planejados.

           Como um resultado importante dessas medidas, a inadimplência tem crescido em grande velocidade chegando a patamares alarmantes como o crescimento de 20% de um mês para outro dos índices registrados. Isso mostra em parte a fragilidade das políticas governamentais de crédito praticadas recentemente, dado que não obedecem a lógica de todo o resto da economia que está numa fase de desaceleração interna e de preocupação com o cenário pessimista internacional. Temos a maior taxa básica de juros do mundo de mercado e criamos linhas de crédito com juros muito menores do que a utilizada como referencial para toda a economia produtiva. Se não acabarmos com mais esta distorção teremos grandes problemas em breve.

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