Nos últimos meses, temos visto críticas estridentes de boa parte dos nossos exportadores reclamando da não intervenção do governo brasileiro na taxa de câmbio, de forma que tornasse a nossa moeda menos valorizada frente ao Dólar. Para nossos exportadores, a política de compra de dólares feita pelo Banco Central nos últimos dois anos deveria ser mantida, o que levaria a termos um preço maior, em Reais, pela aquisição de novos dólares e, por conseqüência, uma moeda menos valorizada.
Para começar, vamos tentar dirimir a confusão que a imprensa brasileira faz com alguns termos do nosso economês, como taxa de câmbio, moeda, valorização e desvalorização do câmbio. Como dizia um querido professor durante meu período de graduação: “o que se valoriza ou desvaloriza é uma moeda frente à outra, e não a taxa de câmbio”. A taxa de câmbio é uma simples razão entre o preço de duas moedas e, no nosso caso, a mais famosa delas é a relação Dólar / Real. Ou seja, se temos uma taxa de câmbio nesses padrões apresentados com o preço de R$ 1,59, isso implica que para comprarmos um dólar, temos que desembolsar R$ 1,59 da nossa moeda nacional. Isso significa que nossa moeda está valendo menos que o Dólar, o que é perfeitamente natural dado o volume de transações feitas em dólares pelo mundo, o tamanho da economia emissora da moeda – que é os EUA – e a força como padrão de trocas internacionais que o Dólar adquiriu desde os anos 50, no pós-segunda guerra. Portanto, nossa MOEDA tem menor valor em relação ao Dólar, e não o câmbio.
O empresariado brasileiro, em geral, está acostumado a ter o favorecimento de uma moeda menos valorizada como vantagem para exportação de seus produtos. Por longos anos após a introdução do Plano Real houve uma política de compra de dólares no mercado interno por parte do BACEN para o aumento das exportações, política essa que visava o saldo positivo da balança comercial para compensar nossos saldos negativos da balança de serviços e de nossa conta de capital. Porém, nos dias atuais, tal política chegou a um limite porque a compra de dólares feita pelo BC tem um custo alto, dado que nossa moeda tende a se valorizar ainda mais e também em virtude da nossa alta taxa de juros interna. Nossas reservas internacionais, que são compostas de dólares, estão num patamar muito elevado, o que gera um custo de mantê-las também alto e leva o Banco Central a não ter mais interesse em novas compras desta moeda no mercado.
Diferentemente do que ocorria até alguns anos atrás, nos dois últimos anos pós-crise financeira de 2008 e após as crises das dívidas européias, o Brasil tem sido um país muito atrativo para o investimento externo em virtude de ter uma economia em expansão, com demanda aquecida, e por remunerar os capitais externos que são investidos em portfólio com a maior taxa real de juros do mundo. Ou seja, temos hoje dois canais importantes de investimento realizados por estrangeiros: o Investimento Direto Externo – IDE – e o investimento em portfólio, ou seja, compra de ações, títulos privados e públicos. A entrada de capitais externos na economia brasileira é estimulada pelo Estado e tem sido fundamental, haja visto que nosso nível de poupança interna é muito baixo para modernizar e criar um novo parque industrial produtivo através de investimentos nacionais. Tal fenômeno tem provocado um saldo positivo de nossa conta de capital, o que praticamente nunca tinha ocorrido na economia brasileira. Hoje a entrada de dólares pelos dois canais tem superado nossa remessa de lucros de multinacionais e demais remessas para o exterior. Portanto, como temos um superávit na Conta de Capital e outro na Balança Comercial com as exportações de Commodities, esses dois efeitos geram pressão para que o Real se valorize frente às demais moedas do mundo, como o Dólar.
Este fato dificulta as exportações, já que nossa moeda se valoriza procurando dar equilíbrio à entrada de capitais com as receitas dos produtos exportados e, principalmente, pela massiva entrada de dólares para investimento. Daí vem toda a reclamação de nossos exportadores, que querem manter suas (altas) taxas de lucro a custo de termos uma moeda mais desvalorizada, o que causa efeitos deletérios nos demais setores da economia como a dificuldade em importar qualquer tipo de produto estrangeiro, que são importantes para a maior parte de nossa economia, como é a compra de máquinas e equipamentos importados.
O já famoso “efeito China” tem provocado uma mudança radical na polarização dos principais players no comércio mundial devido ao grande potencial de exportação daquele país em diversos setores, dos produtos mais simples até os de maior complexidade. A China vem investindo massivamente na construção e atualização do seu parque industrial, investimentos direcionados para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e na qualificação e treinamento de sua mão-de-obra. Infelizmente, o Brasil não tem praticado ações governamentais e privadas nesse sentido, dando somente como desculpa para a queda nas exportações de nossos produtos manufaturados de o Real ter se valorizado em relação ao Dólar. Acrescido a isso, temos a alta de preços de commodities, as quais o Brasil exporta principalmente grãos e minério de ferro, o que gera um maior superávit da balança comercial mesmo com a menor participação dos produtos manufaturados em nossa pauta de exportação. Por mais que nosso governo haja no sentido de desvalorizar nossa moeda, a longo prazo isso não será possível dado a conjuntura de um novo, grande e produtivo exportador mundial. Ou seja, por mais que o BC continuasse periodicamente com a compra de dólares visando desvalorizar nossa moeda, ela se valorizaria no longo prazo.
Portanto, a culpabilidade direcionada ao câmbio por ser responsável da fragorosa queda das exportações de nossos produtos manufaturados é indevida, dado que o empresariado brasileiro não tem trabalhado de forma a tornar mais competitivos os seus produtos, seja por torná-los mais modernos ou mais baratos através da minimização de custos dos insumos ou, principalmente, por tornar suas estruturas de fábricas e indústrias mais produtivas. O que pode e deve ser exigido do governo é uma política agressiva na escolha dos setores mais prejudicados para que medidas temporárias sejam tomadas, como a menor tributação dessas empresas, linhas de crédito através das instituições de fomento com taxas menores e a defesa dos interesses de tais setores nos diversos fóruns de comércio internacional para que não haja desequilíbrios como as práticas de dumping provocadas pela China, as triangulações comerciais para a fuga de impostos de importação e etc.
O câmbio deve ser visto como uma simples relação de preços entre moedas que pode demonstrar problemas escondidos, intencionalmente ou não, em determinada economia. A taxa de câmbio pode ser o sintoma de desequilíbrios internos, mas não a causa.

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