Após a crise financeira mundial de 2008 e mais recentemente após a crise das dívidas dos PIGS, não há mais consenso na Europa sobre a utilização do Euro como moeda comum entre os países que aderiram desde quando ela foi implementada como opção às moedas nacionais. Na época, os benefícios trazidos por uma moeda comum pareciam óbvios: os ganhos de escala nas exportações nacionais onde os países fossem mais eficientes (de acordo com os modelos de comércio internacional tradicionais: Ricardiano e Heckser-Ohlin); o maior poder de barganha nas negociações junto aos Estados Unidos e com os demais blocos econômicos mundiais; e a maior integração da União Européia com o ganho do último estágio de avanço em um bloco econômico que é a criação de uma moeda comum, onde pessoas e produtos transacionam com uma facilidade muito maior.
Entretanto, mesmo antes da última crise, já eram observados efeitos deletérios gerados pelo uso da moeda comum. Os países com renda per capita e PIB menores viram-se com problemas em seus balanços de pagamentos (nada comparado ao que temos hoje) e houve o começo de uma forte migração de oferta de trabalho dos países mais pobres para outros mais ricos que pagavam melhor pelas mesmas funções exercidas pelos trabalhadores. Daí desencadearam-se problemas sociais como processos de xenofobia, sendo apoiados muitas vezes pelos partidos políticos de direita que viam seus países inundados de mão-de-obra estrangeira aceitando menores salários para os empregos oferecidos.
Com a crise, tais efeitos se amplificaram e trouxeram outros novos como o surgimento de déficits públicos colossais, atingindo em alguns países cerca de 50% do PIB nacional. Os títulos usados para financiamento das dívidas nacionais dos países com as economias mais expostas ao ambiente externo tiveram seu valor de mercado levado ao fundo do poço, obrigando os tesouros nacionais a oferecerem altas taxas de juros para a nova rolagem de tais títulos e da dívida pública como um todo. Com isso, a confiança do investidor em geral nos países mais frágeis da zona do Euro diminuiu e a rolagem das dívidas públicas nacionais tornou-se inviável. Foi necessária a “intervenção” (injetando dinheiro) do BCE, oferecendo divisas para os países em situação difícil, mas exigindo – ao mesmo tempo – em troca um plano de austeridade fiscal nas contas nacionais, o que nunca é bem visto pelos Parlamentos nacionais, principalmente nos partidos de oposição aos governos.
Tal situação leva a análise e culpabilidade quase óbvia do uso de uma moeda comum, valorizada em relação ao dólar e em relação às demais moedas no mundo. Se ainda fossem usadas as moedas nacionais na zona do Euro, uma simples desvalorização na moeda local levaria à uma zona de conforto imediata no país onde houvesse problema no pagamento e rolagem da dívida pública. Porém, sabemos dos efeitos negativos que tais desvalorizações causariam como o crescimento da inflação e – mais a frente – um aumento no desemprego. Entretanto, como a situação fiscal em alguns países parece insustentável, a opção pelo fim do Euro ganha força na Europa como um todo, apesar dos maiores membros da UE (usuários do Euro como moeda) – França e Alemanha – mostrarem forte relutância por esta opção. Por serem os maiores PIBs da zona do Euro e por terem seus balanços comerciais superavitários com seus parceiros comerciais, há o apoio na manutenção da moeda comum mesmo dada a situação de crise.
Parece que o limite para a extinção ou não do Euro está na disposição do BCE e do FMI em emprestarem divisas para sanar temporariamente o problema dos endividamentos dos países europeus. Se os planos de austeridade forem de fato implementados pelos governos nacionais conforme exigidos pelos credores e havendo posteriormente uma fase de crescimento econômico dos países em dificuldade, as dívidas tornariam-se novamente solventes e o Euro teria sobrevida. É o caminho que tem sido trilhado por Grécia e Irlanda, que tiveram os planos de austeridade aprovados e estão em curso.
Uma questão que tem sido esquecida pelos entusiastas do fim do Euro como moeda comum é o poder de barganha oferecido pelo seu uso frente às transações no comércio mundial com as grandes potências mundiais, como os Estados Unidos e a China. Operando em bloco com uma mesma moeda, a Europa tem ganhos de escala e eficiência na produção e exportação de seus produtos mais competitivos, favorecendo individualmente o país da UE que tiver melhores condições de produção de determinado produto. Se não houvesse uma moeda comum, haveria naturalmente maiores desequilíbrios nas transações comerciais devido aos diferentes valores de suas moedas nacionais, o que seria uma perda para o bloco econômico como um todo. Isso acontece hoje, por exemplo, com o Mercosul, que tem o Brasil com uma moeda extremamente valorizada frente aos demais países integrantes do bloco.
Portanto, todo o esquema nas transações comerciais entre países da zona do Euro com o mundo teria que ser repensado com o retorno das moedas nacionais, o que certamente levaria a um retrocesso nas economias dos países integrantes e o bloco econômico europeu perderia força nas negociações internacionais em um campo onde – não podemos esquecer - a China vem ganhando território frente às demais potências mundiais. Isso deve ser uma preocupação constante e uma variável a se examinar em uma possível escolha pelo fim da moeda comum.
Em suma, a questão em torno da extinção do Euro deve conter nuances que não vem sendo observadas pelos maiores entusiastas pelo fim da moeda comum. O apelo pelo seu fim parece ser o caminho mais óbvio - dada a primeira grande crise econômica após sua implementação - para a resolução de problemas estruturais nas economias nacionais da Europa. Talvez seja a primeira grande crise de outras futuras a entrar para a história do Euro se forem encontradas outras soluções que não sejam a de sua extinção, como apontadas anteriormente. Afinal, “a maior crise econômica é aquela que ainda não aconteceu”.
Rodrigo, gostei muito da sua análise. É tudo que eu penso.Acredito também que é o começo da derrocada do Euro.
ResponderExcluirSds,
Zelmir