Apesar da “mudança de governo” proporcionada após as últimas eleições tendo como vencedora a atual presidente Dilma Roussef, parece que as direções do novo governo não irão mudar muito em relação ao anterior, o que por um lado pode-se enxergar como algo positivo. Porém, por outro, é uma pena saber que continuaremos com problemas nas esferas políticas, destacando aqui a simetria de opiniões, ações e discursos entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Em tempos de correções na conduta da economia, é um erro imperdoável que tal situação se perpetue, dada a urgência do nosso país na correção de certas políticas econômicas adotadas indevidamente pelo governo anterior (falo aqui de gastos públicos, obviamente).
A dicotomia entre as duas instituições de nossa República começa pela orientação teórica de Economia que cada órgão tem. Enquanto o BC segue de perto a retórica da economia ortodoxa – utilizada em instituições de ensino como as FGVs e PUC -, a Fazenda tem sua linha de pensamento baseada na heterodoxia econômica, tendo como raiz no Brasil a Unicamp, UFRJ, entre outras instituições de ensino. As duas linhas se dividem, grosso modo, entre combate ferrenho a inflação a qualquer custo – caso da primeira linha – e crescimento econômico a qualquer custo, defendido pela segunda linha. Infelizmente, as ferramentas utilizadas em cada uma dessas linhas teóricas vão de encontro aos princípios básicos da teoria oposta, o que dificulta o entendimento entre as partes na hora de uma decisão comum.
Porém, tais desacordos deveriam ficar no discurso entre as teorias e não atingir diretamente as decisões de governo nos rumos a serem tomados pela economia brasileira. Não é o que acontece. Recentemente, vimos o novo presidente do BC defender uma meta menor de inflação para o país, argumentando que dada uma contínua estabilidade econômica – como vem ocorrendo – é possível e benéfico para o país ter uma meta de inflação mais alinhada aos padrões internacionais, o que possibilitaria uma queda na taxa de juros já que a rentabilidade líquida nas aplicações teria maior segurança nas menores perdas que taxas menores de inflação proporcionariam.
A opinião declarada pelo Ministério da Fazenda é totalmente contrária a essa medida indicada pelo BC, com o argumento de que aumentar o combate a inflação prejudicaria o nível de crescimento econômico do país e poderia provocar uma interrupção na trajetória de expansão que vem sendo observada no pós-crise de 2008, prejudicando os investimentos produtivos feitos nos últimos anos.
Ambos os argumentos para a implantação ou não da medida indicada pelo BC são válidos, porém não se pode admitir que duas das mais importantes instituições do governo tenham posições contrárias na condução de uma mesma política econômica, o que só pode gerar atrasos e solavancos em um país que necessita de um projeto de longo prazo visando um mesmo objetivo.
A atual presidente deve atentar para este fato e entender que enquanto durarem essas vozes dissonantes no núcleo econômico do governo, todos nós perderemos com uma clara falta de objetivo comum e de um projeto para o Brasil. A culpabilidade dessa questão deve, sim, ser direcionada ao cargo mais alto da esfera pública brasileira, que mais uma vez já se mostra incompetente em unificar idéias e discursos em torno de um único objetivo.
Rodrigo,
ResponderExcluirO artido do Romero no "Valor" é um plágio da sua idéia,dado que você escreveu antes dele. De qualquer forma, estamos na net sujetos a isso.
Parabéns! Você escreve super claro e bem acessível. O melhor é que você não toma partido! Concordo que é lamentável não ter uma maior coordenação entre o Bacen e o Ministério da Fazenda.
Abraços,
Iraci