Como todos sabem, no Brasil de hoje (e de muito tempo) o maior sonho da maioria de formandos em qualquer graduação de ensino superior é tornar-se funcionário público. Este sonho tem se propagado em nossa sociedade que vê um emprego na iniciativa privada como algo passageiro, onde não se pretende ficar por muito tempo devido ao risco de ser demitido ou de trabalhar em demasia, coisa que não aconteceria na boa (?) carreira de funcionário público. Vejo isso como um risco ao desenvolvimento e avanço intelectual do nosso país. Nossos maiores “cérebros” objetivam trabalhar em instituições públicas, reconhecidamente contraproducentes para uma economia capitalista de mercado.
Um dos possíveis motivos para o aumento desse desejo entre os formandos é a alta concorrência para a contratação por empresas privadas. Os processos seletivos promovidos pelas firmas são extensos e exigem diversas habilidades dos candidatos além daquelas imaginadas para o cargo, como desenvoltura, pró-atividade e etc. Isso faz parte da vida de qualquer profissional em todas as partes do mundo, porém como o Estado brasileiro não estimula a iniciativa privada como deveria, tais candidatos se sentem desprotegidos mesmo quando conseguem o tal emprego, preferindo estudar para concursos públicos mesmo que sejam cargos os quais eles nem exercerão alguma atividade ligada ao que foi aprendido ao longo de, em média, quatro ou cinco anos de faculdade. Estamos falando aqui de talentos desperdiçados por uma realidade no mercado de trabalho totalmente distorcida, onde as empresas privadas são o bicho papão e a iniciativa pública é a mãe que sempre recebe mais um filho em sua casa.
Talvez a maior justificativa para se desejar um emprego público é a da quase impossibilidade de demissão. Num país com o histórico de economia instável, altas taxas de desemprego e um mercado de trabalho muito mais exigente na iniciativa privada, essa impossibilidade torna-se um sonho para a maioria dos novos trabalhadores. Isso gera um enorme desvio de profissionais competentes e capacitados para uma série de atividades em órgãos públicos que não estimulam, não precisam e não desejam profissionais com tantas habilidades. Há um enorme perigo neste fato para o desenvolvimento econômico, social e intelectual do nosso país. Está se atraindo os melhores profissionais - formados nas melhores universidades muitas vezes - para empresas que não contribuem como deveriam para a sociedade, empresas essas totalmente contraproducentes como já é sabido quando necessitamos de um serviço público qualquer.
Precisamos urgentemente modificar este quadro assustador. Se temos uma economia capitalista de mercado, devemos estimular o empreendedorismo e a maior empregabilidade de nossos novos talentos nas empresas privadas, onde há meritocracia e estímulo de toda a parte para a inventividade e o interesse de todas as habilidades do novo profissional. Não podemos continuar premiando a ineficiência de um Estado com órgãos públicos ineficientes, onde um “cabide” de emprego é o sonho de uma massa de novos trabalhadores bem formados.
Se não corrigirmos logo esse direcionamento, corremos o risco de nos atrasarmos ainda mais no progresso econômico, social e, principalmente, intelectual, onde os mais talentosos não vêem estímulo para exercerem sua criatividade, inventividade e o aprendizado absorvido após longos e difíceis anos de estudo.
Engraçado, estava conversando essa semana com a minha família sobre isso! A meu ver, muito desse desejo (em alguns casos obsessão) pela vaga dentro do serviço público se dá em parta pelo nosso histórico de instabilidade econômica e pelas desilusões que temos no setor privado.
ResponderExcluirSobre o primeiro ponto, apesar de 15 anos já terem passado desde o início da estabilização da economia com o Plano Real, as lembranças das épocas de incerteza continuam muito vivas, principalmente na cabeça dos nossos pais, que sempre relembram aqueles tempos de dificuldade, onde o funcionalismo público era a única garantia de um amanhã com salário na conta. Eu mesma fui criada por dois funcionários públicos e cresci sabendo que não nunca seriamos “ricos”, mas também nunca seriamos pobres! Com planejamento a longo prazo, poderíamos ter as coisas que queríamos e viver com tranqüilidade e dignamente. Não digo que isso seja ruim, pelo contrário, esse sentimento de estabilidade é muito bom...é da nossa própria natureza humana, gostamos de estabilidade, procuramos sempre pelo “por seguro” de nossas vidas (filosofei agora heheh)!
O crescimento e desenvolvimento econômico-social do nosso país poderia nos levar a outro patamar, onde a questão do emprego não seria uma prioridade em nossas vidas. O emprego existiria e estaria ali para todos os que estivessem preparados e motivados para ele! Entretanto, sinto que esse cenário não é uma opção agradável aos nossos governantes. Principalmente nesse governo, que aparentemente vai se perpetuar por mais 4 anos, vejo que muito da estratégia é de se manter no poder pelo medo de população sobre o desemprego e o bicho papão da iniciativa privada. A solução aparente é inchar o setor público, com concursos e mais concursos, e intervir em todas as questões , nunca buscando a eficiência. Prontos, somos os mais dependentes do governo do que nunca e tudo se justificará se ele continuar gerando emprego!
Na minha cabeça o governo deveria ser um gerenciador e não o principal provedor de um país! O que quero é uma economia forte, onde haja oportunidades no setor privado em abundância para acompanhar o crescimento e desenvolvimento! Particularmente me sinto só mais uma fonte de receita sem voz nesse país! O mais frustrante é quando vemos a realidade em outros países. Veja o Canadá, por exemplo: tem uma das maiores cargas tributária no mundo, maior do que a nossa, mas em compensação, o governo proporciona a segurança e infra-estrutura que não temos aqui! Hospitais e escolas de qualidade...enfim, dignidade!
Já escrevi até de mais e por isso vou encerrar! Mas não queria deixar de colocar que já tive oportunidade de conhecer pessoas lá de fora que tem um quase que desapego pelo emprego! Aqui saímos da faculdade uma com uma idéia fixa de conseguir logo um...tudo que fazemos depois é para melhorar a nossa condição e oportunidades de trabalho. Poucos são que podem se dar ao luxo de não se preocupar com isso (a eles chamamos de herdeiros)! Já alguns jovens americanos e europeus enfatizam muito mais viver suas vidas do que nós. Tudo bem que com a crise mundial, isso os abalou, mas não é raro encontrar um que tenha pedido demissão ou uma licença não remunerada para viajar pelo mundo durante um ano e depois voltar ao mercado com tranqüilidade! Vai fazer isso aqui! Um ano e estamos para trás, milhares de pessoas já nos passaram e corremos o risco de sermos os temidos desempregados! Infelizmente o setor privado ainda não está tão desenvolvido assim para gerar a quantidade de oportunidades que tem potencial, pois esse papel é do governo, que continua fazendo questão de continuar sendo o protagonista entre os empregadores.