sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os grandes lobbies que levaram à crise financeira de 2008

          O documentário lançado em 2010 sobre a crise econômica financeira de 2008, chamado Inside Job mostra algumas interessantes facetas sobre os porquês do surgimento, manutenção e perpetuidade dos motivos que nos levaram a maior crise econômica desde 1929. E o mais impressionante disso tudo é que as causas - mais que explícitas após o cume da crise em 2008 – continuam sem alterações, tanto nas determinações dos policy makers americanos quanto nas atividades desenvolvidas por bancos, seguradoras e agencias de risco.

            O governo Obama, assim que eleito, tinha a missão de enquadrar as práticas do mundo financeiro que haviam sido desregulamentadas em Wall Street após os fatos mostrarem que houve grandes abusos dos big shots das finanças que agiram, influenciaram e demandaram por maior liberdade no mercado financeiro através de seus representantes inseridos nos governos de W. Bush e do próprio Obama. Infelizmente, o atual presidente falhou em obter uma grande reforma da regulamentação financeira devido aos grandes lobbbies formados por bancos, seguradoras e agencias de risco, obtendo somente uma reforma com pequenas alterações, reconhecidamente ineficiente para evitar a tragédia das conseqüências geradas pela da crise, como o aumento das taxas de desemprego nos EUA e Europa de forma abrupta e superlativa, a perda de ativos financeiros de investidores e poupadores comuns que acreditaram nos bancos americanos por todo o mundo, além do problema das hipotecas nos EUA, que gerou uma massa de cidadãos completamente endividados, sem casa e sem emprego.

            Uma das tônicas interessantes que o documentário aborda e que é inquestionável é a inserção (novamente) de membros dessas grandes instituições financeiras, causadoras de toda a crise, em cargos-chefe do governo americano. Desde os anos 80, cargos como secretário do Tesouro americano, presidente do FED, secretário de finanças, entre outros, vem sendo ocupados repetidamente por grandes personalidades representantes das maiores empresas financeiras dos EUA. Logicamente isso gera um conflito de interesses entre as medidas tomadas por esses representantes do governo, que deveriam zelar por uma maior fiscalizam do mercado financeiro e suas atividades, e suas funções exercidas dentro das empresas que deveriam ser fiscalizadas pelos mesmos.

            A conclusão a que se chega é assustadora por mostrar quem realmente direciona as ações tomadas pelos governos nos EUA, mesmo representando linhas políticas opostas. Os grandes financistas de Nova York determinam através de seu poder de barganha o que o estado americano fará ou deixará de fazer em relação à regulamentação do mercado financeiro. Isso soa panfletário, porém é uma simples constatação dos fatos ocorridos durante a última crise financeira e as anteriores do cenário recente (crise das empresas .com, Enron e etc.). Assim como em outros países (não estamos falando de Brasil aqui, não é?), o Congresso americano e o poder Executivo dos EUA se vêem totalmente influenciados e comandados pelos seus fortes lobbies, principalmente o do mercado financeiro. Apesar de todas as investigações iniciadas nos âmbitos do governo americano, nenhuma chegou a conclusões que levassem culpados a responderem processos e muito menos irem para a cadeia. Os diretores, ceo´s, cfo´s, chairmans continuam atuando da mesma forma no mercado, obtendo milhões de dólares em bônus e gratificações pagas por conseguirem aumentar os lucros de seus bancos, corretoras e demais empresas vendendo títulos ‘tóxicos’ que escamoteiam os grandes riscos envolvidos nos ativos originais.

            Outro ponto espetacular do documentário mostra a ligação entre acadêmicos renomados das melhores universidades dos EUA e o mercado de Wall Street. Muitos deles foram (e são) contratados para escreverem artigos em favor das demandas de bancos, que na época pré-crise queriam uma maior desregulamentação do mercado financeiro. Os artigos escritos a época exaltavam as enormes vantagens dos derivativos financeiros, que transformavam títulos hipotecários em títulos vendidos por bancos de investimento a poupadores que nem sabiam ao que estavam atrelados os tais papéis. O argumento utilizado nos artigos era que o risco de mercado com a criação desses títulos estava sendo distribuído. Realmente o foi, levando milhões de pessoas pelo mundo ao desemprego e nações desenvolvidas a recessões sem precedentes e algumas a bancarrota. É vexatório saber que acadêmicos de algumas das melhores universidades do mundo se prestaram a este papel.

            Como não vimos mudanças substanciais no circo que se transformou o mundo das finanças americano, podemos esperar no futuro por outras crises econômicas causadas por especulações financeiras. Os grandes culpados por fazerem milhões de pessoas ao redor do mundo perderem suas casas, seus empregos e sua dignidade continuam atuando livremente nas grandes firmas de Wall Street. Não há esperanças que isso vá mudar tão cedo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

BC e Fazenda de lados opostos (mais uma vez)

       Apesar da “mudança de governo” proporcionada após as últimas eleições tendo como vencedora a atual presidente Dilma Roussef, parece que as direções do novo governo não irão mudar muito em relação ao anterior, o que por um lado pode-se enxergar como algo positivo. Porém, por outro, é uma pena saber que continuaremos com problemas nas esferas políticas, destacando aqui a simetria de opiniões, ações e discursos entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Em tempos de correções na conduta da economia, é um erro imperdoável que tal situação se perpetue, dada a urgência do nosso país na correção de certas políticas econômicas adotadas indevidamente pelo governo anterior (falo aqui de gastos públicos, obviamente).
      
           A dicotomia entre as duas instituições de nossa República começa pela orientação teórica de Economia que cada órgão tem. Enquanto o BC segue de perto a retórica da economia ortodoxa – utilizada em instituições de ensino como as FGVs e PUC -, a Fazenda tem sua linha de pensamento baseada na heterodoxia econômica, tendo como raiz no Brasil a Unicamp, UFRJ, entre outras instituições de ensino. As duas linhas se dividem, grosso modo, entre combate ferrenho a inflação a qualquer custo – caso da primeira linha – e crescimento econômico a qualquer custo, defendido pela segunda linha. Infelizmente, as ferramentas utilizadas em cada uma dessas linhas teóricas vão de encontro aos princípios básicos da teoria oposta, o que dificulta o entendimento entre as partes na hora de uma decisão comum.

            Porém, tais desacordos deveriam ficar no discurso entre as teorias e não atingir diretamente as decisões de governo nos rumos a serem tomados pela economia brasileira. Não é o que acontece. Recentemente, vimos o novo presidente do BC defender uma meta menor de inflação para o país, argumentando que dada uma contínua estabilidade econômica – como vem ocorrendo – é possível e benéfico para o país ter uma meta de inflação mais alinhada aos padrões internacionais, o que possibilitaria uma queda na taxa de juros já que a rentabilidade líquida nas aplicações teria maior segurança nas menores perdas que taxas menores de inflação proporcionariam.

            A opinião declarada pelo Ministério da Fazenda é totalmente contrária a essa medida indicada pelo BC, com o argumento de que aumentar o combate a inflação prejudicaria o nível de crescimento econômico do país e poderia provocar uma interrupção na trajetória de expansão que vem sendo observada no pós-crise de 2008, prejudicando os investimentos produtivos feitos nos últimos anos.

            Ambos os argumentos para a implantação ou não da medida indicada pelo BC são válidos, porém não se pode admitir que duas das mais importantes instituições do governo tenham posições contrárias na condução de uma mesma política econômica, o que só pode gerar atrasos e solavancos em um país que necessita de um projeto de longo prazo visando um mesmo objetivo.

            A atual presidente deve atentar para este fato e entender que enquanto durarem essas vozes dissonantes no núcleo econômico do governo, todos nós perderemos com uma clara falta de objetivo comum e de um projeto para o Brasil. A culpabilidade dessa questão deve, sim, ser direcionada ao cargo mais alto da esfera pública brasileira, que mais uma vez já se mostra incompetente em unificar idéias e discursos em torno de um único objetivo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Fim do Euro: solução óbvia?

              Após a crise financeira mundial de 2008 e mais recentemente após a crise das dívidas dos PIGS, não há mais consenso na Europa sobre a utilização do Euro como moeda comum entre os países que aderiram desde quando ela foi implementada como opção às moedas nacionais. Na época, os benefícios trazidos por uma moeda comum pareciam óbvios: os ganhos de escala nas exportações nacionais onde os países fossem mais eficientes (de acordo com os modelos de comércio internacional tradicionais: Ricardiano e Heckser-Ohlin); o maior poder de barganha nas negociações junto aos Estados Unidos e com os demais blocos econômicos mundiais; e a maior integração da União Européia com o ganho do último estágio de avanço em um bloco econômico que é a criação de uma moeda comum, onde pessoas e produtos transacionam com uma facilidade muito maior.  

                Entretanto, mesmo antes da última crise, já eram observados efeitos deletérios gerados pelo uso da moeda comum. Os países com renda per capita e PIB menores viram-se com problemas em seus balanços de pagamentos (nada comparado ao que temos hoje) e houve o começo de uma forte migração de oferta de trabalho dos países mais pobres para outros mais ricos que pagavam melhor pelas mesmas funções exercidas pelos trabalhadores. Daí desencadearam-se problemas sociais como processos de xenofobia, sendo apoiados muitas vezes pelos partidos políticos de direita que viam seus países inundados de mão-de-obra estrangeira aceitando menores salários para os empregos oferecidos.

                Com a crise, tais efeitos se amplificaram e trouxeram outros novos como o surgimento de déficits públicos colossais, atingindo em alguns países cerca de 50% do PIB nacional. Os títulos usados para financiamento das dívidas nacionais dos países com as economias mais expostas ao ambiente externo tiveram seu valor de mercado levado ao fundo do poço, obrigando os tesouros nacionais a oferecerem altas taxas de juros para a nova rolagem de tais títulos e da dívida pública como um todo. Com isso, a confiança do investidor em geral nos países mais frágeis da zona do Euro diminuiu e a rolagem das dívidas públicas nacionais tornou-se inviável. Foi necessária a “intervenção” (injetando dinheiro) do BCE, oferecendo divisas para os países em situação difícil, mas exigindo – ao mesmo tempo – em troca um plano de austeridade fiscal nas contas nacionais, o que nunca é bem visto pelos Parlamentos nacionais, principalmente nos partidos de oposição aos governos.

                Tal situação leva a análise e culpabilidade quase óbvia do uso de uma moeda comum, valorizada em relação ao dólar e em relação às demais moedas no mundo. Se ainda fossem usadas as moedas nacionais na zona do Euro, uma simples desvalorização na moeda local levaria à uma zona de conforto imediata no país onde houvesse problema no pagamento e rolagem da dívida pública. Porém, sabemos dos efeitos negativos que tais desvalorizações causariam como o crescimento da inflação e – mais a frente – um aumento no desemprego. Entretanto, como a situação fiscal em alguns países parece insustentável, a opção pelo fim do Euro ganha força na Europa como um todo, apesar dos maiores membros da UE (usuários do Euro como moeda) – França e Alemanha – mostrarem forte relutância por esta opção. Por serem os maiores PIBs da zona do Euro e por terem seus balanços comerciais superavitários com seus parceiros comerciais, há o apoio na manutenção da moeda comum mesmo dada a situação de crise.

                Parece que o limite para a extinção ou não do Euro está na disposição do BCE e do FMI em emprestarem divisas para sanar temporariamente o problema dos endividamentos dos países europeus. Se os planos de austeridade forem de fato implementados pelos governos nacionais conforme exigidos pelos credores e havendo posteriormente uma fase de crescimento econômico dos países em dificuldade, as dívidas tornariam-se novamente solventes e o Euro teria sobrevida. É o caminho que tem sido trilhado por Grécia e Irlanda, que tiveram os planos de austeridade aprovados e estão em curso.

                Uma questão que tem sido esquecida pelos entusiastas do fim do Euro como moeda comum é o poder de barganha oferecido pelo seu uso frente às transações no comércio mundial com as grandes potências mundiais, como os Estados Unidos e a China. Operando em bloco com uma mesma moeda, a Europa tem ganhos de escala e eficiência na produção e exportação de seus produtos mais competitivos, favorecendo individualmente o país da UE que tiver melhores condições de produção de determinado produto. Se não houvesse uma moeda comum, haveria naturalmente maiores desequilíbrios nas transações comerciais devido aos diferentes valores de suas moedas nacionais, o que seria uma perda para o bloco econômico como um todo. Isso acontece hoje, por exemplo, com o Mercosul, que tem o Brasil com uma moeda extremamente valorizada frente aos demais países integrantes do bloco.

                Portanto, todo o esquema nas transações comerciais entre países da zona do Euro com o mundo teria que ser repensado com o retorno das moedas nacionais, o que certamente levaria a um retrocesso nas economias dos países integrantes e o bloco econômico europeu perderia força nas negociações internacionais em um campo onde – não podemos esquecer - a China vem ganhando território frente às demais potências mundiais. Isso deve ser uma preocupação constante e uma variável a se examinar em uma possível escolha pelo fim da moeda comum.

                Em suma, a questão em torno da extinção do Euro deve conter nuances que não vem sendo observadas pelos maiores entusiastas pelo fim da moeda comum. O apelo pelo seu fim parece ser o caminho mais óbvio - dada a primeira grande crise econômica após sua implementação - para a resolução de problemas estruturais nas economias nacionais da Europa. Talvez seja a primeira grande crise de outras futuras a entrar para a história do Euro se forem encontradas outras soluções que não sejam a de sua extinção, como apontadas anteriormente. Afinal, “a maior crise econômica é aquela que ainda não aconteceu”.

domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra de moedas ou incoerências entre teoria e prática econômicas?


            Assistimos agora pelo mundo a corrida pela desvalorização de moedas, em uma tentativa dos países de conseguirem gerar superávits comerciais em seus balanços no “pós” (será?) crise financeira de 2008. No entanto, indo além dessa medida, alguns países que utilizam esse método para auferir ganhos não recomendavam tal medida como política a ser usada em suas cartilhas econômicas. Vemos como exemplo, os Estados Unidos emitindo freneticamente dólares para tentar reativar sua economia, medida sempre condenada por tal país na condução econômica recomendada mundialmente por seus policy makers mesmo diante de alguma crise econômica.

            A justificativa principal utilizada pelos EUA é a tentativa de sair da crise financeira que afetou visceralmente seu sistema econômico. Com alto nível de desemprego, baixo crescimento, e uma dívida pública explosiva, o país se mostra encurralado diante da crise passada e por ver aumentada sua dependência em relação a China, seu principal credor e um dos maiores importadores de seus produtos. O país ainda reclama da desvalorização artificial feita pela China em sua moeda, o que gera maiores déficits para os EUA que também são grandes importadores da mais variada gama de produtos chineses. Porém, os Estados Unidos sempre mantiveram o discurso de que seria irresponsável um país emitir moeda para tentar ativar uma recuperação econômica. É no mínimo interessante ver o grande difusor dos preceitos econômicos clássicos utilizarem-se da medida que os mesmos recriminam ao longo de décadas.

            As justificativas possíveis para o fato é o ambiente de crise econômica vivida hoje principalmente pelos países desenvolvidos. A quebra de instituições financeiras americanas ditas sólidas na crise passada assustou até os mais crentes no sistema financeiro atual. Ademais, na seqüência vieram a recessão econômica na Europa e as crises das dívidas, como da Grécia e do grupo dos PIGS.

             A diferença fundamental entre o posicionamento diante da crise de EUA e Europa são as medidas econômicas utilizadas. Enquanto na Europa pacotes de austeridade fiscal se proliferam entre seus integrantes, os Estados Unidos aceleram seus gastos e tornam sua taxa real de juros praticamente negativa com a inundação de liquidez em seus mercados. Onde estão os preceitos econômicos defendidos e não mais utilizados pelos EUA? O famoso ditado popular – “no ganho somos capitalistas e na perda somos socialistas” – parece ser a única moral da estória possível para a contradição entre a teoria e prática econômicas norte-americana.

            Enquanto as medidas de austeridade fiscal são utilizadas na Europa – o que reza a teoria Clássica, mesmo sabendo dos efeitos maléficos provocados (desemprego e recessão) -, os EUA se distanciam da lógica econômica clássica e tentam sair da crise com medidas reconhecidamente “keynesianas”. A questão da guerra cambial e as ameaças dos EUA à China neste respeito são meros blefes na tentativa de recuperação de sua economia e a manutenção da hegemonia mundial. Talvez seja o que restou aos norte-americanos como grito de sobrevivência pela liderança econômica que está sendo ameaçada pelo dragão chinês.

            Entendo que os EUA para ter maior sucesso em sua recuperação econômica precisam ter mais coerência entre a teoria e a prática no campo econômico. É fundamental um ajuste fiscal, como feito hoje pela Europa, na economia americana para dar confiança aos investidores daquele país na busca da recuperação de solidez econômica para que seja possível sua manutenção na liderança do ranking mundial. Parece que as ferramentas utilizadas – aumento de gastos e taxa de juros baixa – não vem surtindo o efeito desejado. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A bipolarização política e temática das eleições

            Parece que vivemos o pior período eleitoral dos últimos 30 anos. Vemos dois pólos argumentarem de formas diferentes com os mesmos motivos para se elegerem. Isso poderia ser um bom caminho se não gerasse a simplificação das diferenças entre esses dois pólos nos assuntos aborto e privatização. As nossas demandas para os nossos futuros representantes públicos por mais, no mínimo, 4 anos se resumem à estes dois assuntos citados anteriormente. Será que realmente nos interessa saber se os candidatos postos no certame eleitoral da vez levam como bandeiras principais dos seus programas de governo a questão do aborto e da privatização?

                Acredito que é importante dizer que os dois temas são postos como defeitos do lado oposto. Privatização e aborto são “males” que devem ser repudiados pela sociedade brasileira, como se fossem temas postos por um representante de Lúcifer na terra. Pelo contrário, esses temas são importantes e devem ser discutidos nos diversos fóruns que a sociedade dispõe para um possível ponto de convergência.

                A privatização se mostrou fundamental em diversos setores da economia brasileira, como o da telefonia. A partilha feita em leilão pelas diversas empresas privadas interessadas em desenvolver o setor de telecomunicação foi o que provocou o avanço de tecnologia, gerando a possibilidade que temos hoje de milhões de brasileiros portando uma e, às vezes, duas linhas de telefone celular. Com o estímulo a concorrência de empresas privadas no setor, foi possível multiplicar a existência de linhas telefônicas que permitiram uma maior integração do nosso país como um todo, onde temos a facilidade e o baixo custo em termos um meio de comunicação com alta tecnologia assim como nos países desenvolvidos, o que serve de ponto de convergência com tais países. Isso não teria ocorrido se o Estado continuasse com a política de desenvolver “estrategicamente” tal setor, assim como foi com o de informática durante os anos 70 e 80.

                Porém, não podemos aceitar falácias a partir disso, dizendo que tal governo, se eleito, irá continuar com a privatização dos demais setores da economia brasileira, como se fosse possível gerar uma panacéia deste exemplo para os demais temas que envolvem a economia. O exemplo mais atual disso é dizer que o tal governo, se eleito, irá privatizar o pré-sal. Ora, mal temos tecnologia (incluindo os demais países) para saber como extrair petróleo de tal profundidade. Como alguém pode afirmar sobre a privatização de algo que não existe?

                A questão do aborto já envolve conceitos arraigados à nossa população, que tem reflexos na religião, principalmente a Católica. É irônico, porque tendemos para uma população onde a taxa de natalidade cai vertiginosamente para índices apresentados nos países já desenvolvidos, mas não conseguimos discutir de forma madura este tema. A temática do aborto deve ser levada em consideração num país que almeja ser desenvolvido, onde a população tem conhecimento para discernir as particularidades que envolvem a questão. Talvez aí esteja o problema: não temos uma população preparada - educacionalmente e psicologicamente - para discutir um tema desta importância, onde setores da sociedade são influenciados por organizações com intenções das mais diversas possíveis, como as do tipo políticas e religiosas, onde o cidadão analfabeto, mal instruído e mal educado tem lugar cativo.

                Portanto, não devemos também dirigir o nosso voto para quem é a favor ou contra o aborto. Isso seria a simplificação vergonhosa de um ato fundamental para nossa jovem democracia.

                Devemos eleger aquele que reunir um maior número de projetos de governo com os quais nos identificamos e estamos de acordo. Não devemos, jamais, simplificar nossa escolha por um único tema, seja ele qual for. Façamos a prática tão incomum ao brasileiro de pesquisar, discutir e entender cada projeto de governo desenvolvido por essa bipolarização política, através de todo o tipo de informação que nos for disponível. Temos até o dia 31 de outubro pra fazermos isso.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tolerância e a busca por dias de paz

             É impressionante a infinidade de formas pelas quais o ser humano tenta fugir da realidade para transformá-la em algo mais palatável aos seus desejos. Vi um filme hoje que me impressionou muito e me levou a escrever este artigo. O filme fala, basicamente, de conseguir avançar e voltar no tempo para corrigir situações e fatos que nós gostaríamos muito que fossem diferentes do que ocorreu de fato.

            Parece claro o entendimento das pessoas de que o mundo não vai bem e que as coisas deveriam ser diferentes. Porém, isso não leva as pessoas a lutar para tentar mudar suas realidades. Leva, sim, à criação mental de mundos ideais, onde tudo aconteceria conforme nossos desejos individuais. Acredito que isso é um problema grave dos nossos dias, onde preferimos ficar presos à ilusões perfeitas da nossa individualidade, em detrimento da aceitação de uma realidade onde as coisas não são como queríamos, mas onde poderíamos criar um ambiente real e próximo das nossas vontades.

            A principal forma de fuga da realidade é a alienação. Nos mantemos dentro do nosso próprio mundo onde podemos controlar a maioria dos fatos e situações, e, principalmente, conseguimos afastar os acontecimentos e revezes da vida que gostaríamos de não incluir na nossa estória.  Isso acaba levando a um isolamento da realidade e a um distanciamento das pessoas e dos fatos ocorridos. E daí deriva todo o problema. Quanto mais nos prendemos no nosso mundo, as diferenças entre as pessoas vão aumentando de forma que um indivíduo simplesmente não aceita (e não respeita) a individualidade do outro. Passamos a pensar que “o mundo está louco”, “as pessoas perderam a razão” ou coisa do tipo. Nada disso.

            Provavelmente a solução para isso viria de uma atitude conhecida por todos, mas cada vez menos praticada: tolerância. Não somos tolerantes com a família, com amigos e nos demais tipos de relacionamento que mantemos. Imagine com estranhos.  A tolerância perde seu espaço para vaidades individuais e principalmente para o medo que temos de não acharmos o nosso “lugar” ou a nossa verdade (?), de não conseguirmos nos auto-afirmar e não aparecermos como destaque nos círculos de relacionamento pessoal. Como exemplo clássico de intolerância no mundo, temos todos os atuais problemas religiosos envolvendo povos e países que se dizem estar em “guerras santas” (incluindo nesse bolo os Estado Unidos). A lei (isso mesmo, LEI) que proíbe muçulmanas de usarem a Burca na França é um símbolo do grande absurdo do mundo de intolerâncias que vivemos hoje.

            Só teremos dias de paz se conseguirmos superar o momento atual de intolerância geral entre as pessoas. Devemos lutar pela maior aceitação das diferentes idéias, atos e costumes de cada indivíduo e entender que isso trará benefícios a nós mesmos. Infelizmente, parece que estamos bem longe disso.

sábado, 2 de outubro de 2010

O sonho do emprego público: um desperdício de talentos

          Como todos sabem, no Brasil de hoje (e de muito tempo) o maior sonho da maioria de formandos em qualquer graduação de ensino superior é tornar-se funcionário público. Este sonho tem se propagado em nossa sociedade que vê um emprego na iniciativa privada como algo passageiro, onde não se pretende ficar por muito tempo devido ao risco de ser demitido ou de trabalhar em demasia, coisa que não aconteceria na boa (?) carreira de funcionário público. Vejo isso como um risco ao desenvolvimento e avanço intelectual do nosso país. Nossos maiores “cérebros” objetivam trabalhar em instituições públicas, reconhecidamente contraproducentes para uma economia capitalista de mercado.

            Um dos possíveis motivos para o aumento desse desejo entre os formandos é a alta concorrência para a contratação por empresas privadas. Os processos seletivos promovidos pelas firmas são extensos e exigem diversas habilidades dos candidatos além daquelas imaginadas para o cargo, como desenvoltura, pró-atividade e etc. Isso faz parte da vida de qualquer profissional em todas as partes do mundo, porém como o Estado brasileiro não estimula a iniciativa privada como deveria, tais candidatos se sentem desprotegidos mesmo quando conseguem o tal emprego, preferindo estudar para concursos públicos mesmo que sejam cargos os quais eles nem exercerão alguma atividade ligada ao que foi aprendido ao longo de, em média, quatro ou cinco anos de faculdade. Estamos falando aqui de talentos desperdiçados por uma realidade no mercado de trabalho totalmente distorcida, onde as empresas privadas são o bicho papão e a iniciativa pública é a mãe que sempre recebe mais um filho em sua casa.

            Talvez a maior justificativa para se desejar um emprego público é a da quase impossibilidade de demissão. Num país com o histórico de economia instável, altas taxas de desemprego e um mercado de trabalho muito mais exigente na iniciativa privada, essa impossibilidade torna-se um sonho para a maioria dos novos trabalhadores. Isso gera um enorme desvio de profissionais competentes e capacitados para uma série de atividades em órgãos públicos que não estimulam, não precisam e não desejam profissionais com tantas habilidades. Há um enorme perigo neste fato para o desenvolvimento econômico, social e intelectual do nosso país. Está se atraindo os melhores profissionais - formados nas melhores universidades muitas vezes - para empresas que não contribuem como deveriam para a sociedade, empresas essas totalmente contraproducentes como já é sabido quando necessitamos de um serviço público qualquer.

            Precisamos urgentemente modificar este quadro assustador. Se temos uma economia capitalista de mercado, devemos estimular o empreendedorismo e a maior empregabilidade de nossos novos talentos nas empresas privadas, onde há meritocracia e estímulo de toda a parte para a inventividade e o interesse de todas as habilidades do novo profissional. Não podemos continuar premiando a ineficiência de um Estado com órgãos públicos ineficientes, onde um “cabide” de emprego é o sonho de uma massa de novos trabalhadores bem formados.

            Se não corrigirmos logo esse direcionamento, corremos o risco de nos atrasarmos ainda mais no progresso econômico, social e, principalmente, intelectual, onde os mais talentosos não vêem estímulo para exercerem sua criatividade, inventividade e o aprendizado absorvido após longos e difíceis anos de estudo.