sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A bipolarização política e temática das eleições

            Parece que vivemos o pior período eleitoral dos últimos 30 anos. Vemos dois pólos argumentarem de formas diferentes com os mesmos motivos para se elegerem. Isso poderia ser um bom caminho se não gerasse a simplificação das diferenças entre esses dois pólos nos assuntos aborto e privatização. As nossas demandas para os nossos futuros representantes públicos por mais, no mínimo, 4 anos se resumem à estes dois assuntos citados anteriormente. Será que realmente nos interessa saber se os candidatos postos no certame eleitoral da vez levam como bandeiras principais dos seus programas de governo a questão do aborto e da privatização?

                Acredito que é importante dizer que os dois temas são postos como defeitos do lado oposto. Privatização e aborto são “males” que devem ser repudiados pela sociedade brasileira, como se fossem temas postos por um representante de Lúcifer na terra. Pelo contrário, esses temas são importantes e devem ser discutidos nos diversos fóruns que a sociedade dispõe para um possível ponto de convergência.

                A privatização se mostrou fundamental em diversos setores da economia brasileira, como o da telefonia. A partilha feita em leilão pelas diversas empresas privadas interessadas em desenvolver o setor de telecomunicação foi o que provocou o avanço de tecnologia, gerando a possibilidade que temos hoje de milhões de brasileiros portando uma e, às vezes, duas linhas de telefone celular. Com o estímulo a concorrência de empresas privadas no setor, foi possível multiplicar a existência de linhas telefônicas que permitiram uma maior integração do nosso país como um todo, onde temos a facilidade e o baixo custo em termos um meio de comunicação com alta tecnologia assim como nos países desenvolvidos, o que serve de ponto de convergência com tais países. Isso não teria ocorrido se o Estado continuasse com a política de desenvolver “estrategicamente” tal setor, assim como foi com o de informática durante os anos 70 e 80.

                Porém, não podemos aceitar falácias a partir disso, dizendo que tal governo, se eleito, irá continuar com a privatização dos demais setores da economia brasileira, como se fosse possível gerar uma panacéia deste exemplo para os demais temas que envolvem a economia. O exemplo mais atual disso é dizer que o tal governo, se eleito, irá privatizar o pré-sal. Ora, mal temos tecnologia (incluindo os demais países) para saber como extrair petróleo de tal profundidade. Como alguém pode afirmar sobre a privatização de algo que não existe?

                A questão do aborto já envolve conceitos arraigados à nossa população, que tem reflexos na religião, principalmente a Católica. É irônico, porque tendemos para uma população onde a taxa de natalidade cai vertiginosamente para índices apresentados nos países já desenvolvidos, mas não conseguimos discutir de forma madura este tema. A temática do aborto deve ser levada em consideração num país que almeja ser desenvolvido, onde a população tem conhecimento para discernir as particularidades que envolvem a questão. Talvez aí esteja o problema: não temos uma população preparada - educacionalmente e psicologicamente - para discutir um tema desta importância, onde setores da sociedade são influenciados por organizações com intenções das mais diversas possíveis, como as do tipo políticas e religiosas, onde o cidadão analfabeto, mal instruído e mal educado tem lugar cativo.

                Portanto, não devemos também dirigir o nosso voto para quem é a favor ou contra o aborto. Isso seria a simplificação vergonhosa de um ato fundamental para nossa jovem democracia.

                Devemos eleger aquele que reunir um maior número de projetos de governo com os quais nos identificamos e estamos de acordo. Não devemos, jamais, simplificar nossa escolha por um único tema, seja ele qual for. Façamos a prática tão incomum ao brasileiro de pesquisar, discutir e entender cada projeto de governo desenvolvido por essa bipolarização política, através de todo o tipo de informação que nos for disponível. Temos até o dia 31 de outubro pra fazermos isso.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tolerância e a busca por dias de paz

             É impressionante a infinidade de formas pelas quais o ser humano tenta fugir da realidade para transformá-la em algo mais palatável aos seus desejos. Vi um filme hoje que me impressionou muito e me levou a escrever este artigo. O filme fala, basicamente, de conseguir avançar e voltar no tempo para corrigir situações e fatos que nós gostaríamos muito que fossem diferentes do que ocorreu de fato.

            Parece claro o entendimento das pessoas de que o mundo não vai bem e que as coisas deveriam ser diferentes. Porém, isso não leva as pessoas a lutar para tentar mudar suas realidades. Leva, sim, à criação mental de mundos ideais, onde tudo aconteceria conforme nossos desejos individuais. Acredito que isso é um problema grave dos nossos dias, onde preferimos ficar presos à ilusões perfeitas da nossa individualidade, em detrimento da aceitação de uma realidade onde as coisas não são como queríamos, mas onde poderíamos criar um ambiente real e próximo das nossas vontades.

            A principal forma de fuga da realidade é a alienação. Nos mantemos dentro do nosso próprio mundo onde podemos controlar a maioria dos fatos e situações, e, principalmente, conseguimos afastar os acontecimentos e revezes da vida que gostaríamos de não incluir na nossa estória.  Isso acaba levando a um isolamento da realidade e a um distanciamento das pessoas e dos fatos ocorridos. E daí deriva todo o problema. Quanto mais nos prendemos no nosso mundo, as diferenças entre as pessoas vão aumentando de forma que um indivíduo simplesmente não aceita (e não respeita) a individualidade do outro. Passamos a pensar que “o mundo está louco”, “as pessoas perderam a razão” ou coisa do tipo. Nada disso.

            Provavelmente a solução para isso viria de uma atitude conhecida por todos, mas cada vez menos praticada: tolerância. Não somos tolerantes com a família, com amigos e nos demais tipos de relacionamento que mantemos. Imagine com estranhos.  A tolerância perde seu espaço para vaidades individuais e principalmente para o medo que temos de não acharmos o nosso “lugar” ou a nossa verdade (?), de não conseguirmos nos auto-afirmar e não aparecermos como destaque nos círculos de relacionamento pessoal. Como exemplo clássico de intolerância no mundo, temos todos os atuais problemas religiosos envolvendo povos e países que se dizem estar em “guerras santas” (incluindo nesse bolo os Estado Unidos). A lei (isso mesmo, LEI) que proíbe muçulmanas de usarem a Burca na França é um símbolo do grande absurdo do mundo de intolerâncias que vivemos hoje.

            Só teremos dias de paz se conseguirmos superar o momento atual de intolerância geral entre as pessoas. Devemos lutar pela maior aceitação das diferentes idéias, atos e costumes de cada indivíduo e entender que isso trará benefícios a nós mesmos. Infelizmente, parece que estamos bem longe disso.

sábado, 2 de outubro de 2010

O sonho do emprego público: um desperdício de talentos

          Como todos sabem, no Brasil de hoje (e de muito tempo) o maior sonho da maioria de formandos em qualquer graduação de ensino superior é tornar-se funcionário público. Este sonho tem se propagado em nossa sociedade que vê um emprego na iniciativa privada como algo passageiro, onde não se pretende ficar por muito tempo devido ao risco de ser demitido ou de trabalhar em demasia, coisa que não aconteceria na boa (?) carreira de funcionário público. Vejo isso como um risco ao desenvolvimento e avanço intelectual do nosso país. Nossos maiores “cérebros” objetivam trabalhar em instituições públicas, reconhecidamente contraproducentes para uma economia capitalista de mercado.

            Um dos possíveis motivos para o aumento desse desejo entre os formandos é a alta concorrência para a contratação por empresas privadas. Os processos seletivos promovidos pelas firmas são extensos e exigem diversas habilidades dos candidatos além daquelas imaginadas para o cargo, como desenvoltura, pró-atividade e etc. Isso faz parte da vida de qualquer profissional em todas as partes do mundo, porém como o Estado brasileiro não estimula a iniciativa privada como deveria, tais candidatos se sentem desprotegidos mesmo quando conseguem o tal emprego, preferindo estudar para concursos públicos mesmo que sejam cargos os quais eles nem exercerão alguma atividade ligada ao que foi aprendido ao longo de, em média, quatro ou cinco anos de faculdade. Estamos falando aqui de talentos desperdiçados por uma realidade no mercado de trabalho totalmente distorcida, onde as empresas privadas são o bicho papão e a iniciativa pública é a mãe que sempre recebe mais um filho em sua casa.

            Talvez a maior justificativa para se desejar um emprego público é a da quase impossibilidade de demissão. Num país com o histórico de economia instável, altas taxas de desemprego e um mercado de trabalho muito mais exigente na iniciativa privada, essa impossibilidade torna-se um sonho para a maioria dos novos trabalhadores. Isso gera um enorme desvio de profissionais competentes e capacitados para uma série de atividades em órgãos públicos que não estimulam, não precisam e não desejam profissionais com tantas habilidades. Há um enorme perigo neste fato para o desenvolvimento econômico, social e intelectual do nosso país. Está se atraindo os melhores profissionais - formados nas melhores universidades muitas vezes - para empresas que não contribuem como deveriam para a sociedade, empresas essas totalmente contraproducentes como já é sabido quando necessitamos de um serviço público qualquer.

            Precisamos urgentemente modificar este quadro assustador. Se temos uma economia capitalista de mercado, devemos estimular o empreendedorismo e a maior empregabilidade de nossos novos talentos nas empresas privadas, onde há meritocracia e estímulo de toda a parte para a inventividade e o interesse de todas as habilidades do novo profissional. Não podemos continuar premiando a ineficiência de um Estado com órgãos públicos ineficientes, onde um “cabide” de emprego é o sonho de uma massa de novos trabalhadores bem formados.

            Se não corrigirmos logo esse direcionamento, corremos o risco de nos atrasarmos ainda mais no progresso econômico, social e, principalmente, intelectual, onde os mais talentosos não vêem estímulo para exercerem sua criatividade, inventividade e o aprendizado absorvido após longos e difíceis anos de estudo.