Parece que vivemos o pior período eleitoral dos últimos 30 anos. Vemos dois pólos argumentarem de formas diferentes com os mesmos motivos para se elegerem. Isso poderia ser um bom caminho se não gerasse a simplificação das diferenças entre esses dois pólos nos assuntos aborto e privatização. As nossas demandas para os nossos futuros representantes públicos por mais, no mínimo, 4 anos se resumem à estes dois assuntos citados anteriormente. Será que realmente nos interessa saber se os candidatos postos no certame eleitoral da vez levam como bandeiras principais dos seus programas de governo a questão do aborto e da privatização?
Acredito que é importante dizer que os dois temas são postos como defeitos do lado oposto. Privatização e aborto são “males” que devem ser repudiados pela sociedade brasileira, como se fossem temas postos por um representante de Lúcifer na terra. Pelo contrário, esses temas são importantes e devem ser discutidos nos diversos fóruns que a sociedade dispõe para um possível ponto de convergência.
A privatização se mostrou fundamental em diversos setores da economia brasileira, como o da telefonia. A partilha feita em leilão pelas diversas empresas privadas interessadas em desenvolver o setor de telecomunicação foi o que provocou o avanço de tecnologia, gerando a possibilidade que temos hoje de milhões de brasileiros portando uma e, às vezes, duas linhas de telefone celular. Com o estímulo a concorrência de empresas privadas no setor, foi possível multiplicar a existência de linhas telefônicas que permitiram uma maior integração do nosso país como um todo, onde temos a facilidade e o baixo custo em termos um meio de comunicação com alta tecnologia assim como nos países desenvolvidos, o que serve de ponto de convergência com tais países. Isso não teria ocorrido se o Estado continuasse com a política de desenvolver “estrategicamente” tal setor, assim como foi com o de informática durante os anos 70 e 80.
Porém, não podemos aceitar falácias a partir disso, dizendo que tal governo, se eleito, irá continuar com a privatização dos demais setores da economia brasileira, como se fosse possível gerar uma panacéia deste exemplo para os demais temas que envolvem a economia. O exemplo mais atual disso é dizer que o tal governo, se eleito, irá privatizar o pré-sal. Ora, mal temos tecnologia (incluindo os demais países) para saber como extrair petróleo de tal profundidade. Como alguém pode afirmar sobre a privatização de algo que não existe?
A questão do aborto já envolve conceitos arraigados à nossa população, que tem reflexos na religião, principalmente a Católica. É irônico, porque tendemos para uma população onde a taxa de natalidade cai vertiginosamente para índices apresentados nos países já desenvolvidos, mas não conseguimos discutir de forma madura este tema. A temática do aborto deve ser levada em consideração num país que almeja ser desenvolvido, onde a população tem conhecimento para discernir as particularidades que envolvem a questão. Talvez aí esteja o problema: não temos uma população preparada - educacionalmente e psicologicamente - para discutir um tema desta importância, onde setores da sociedade são influenciados por organizações com intenções das mais diversas possíveis, como as do tipo políticas e religiosas, onde o cidadão analfabeto, mal instruído e mal educado tem lugar cativo.
Portanto, não devemos também dirigir o nosso voto para quem é a favor ou contra o aborto. Isso seria a simplificação vergonhosa de um ato fundamental para nossa jovem democracia.
Devemos eleger aquele que reunir um maior número de projetos de governo com os quais nos identificamos e estamos de acordo. Não devemos, jamais, simplificar nossa escolha por um único tema, seja ele qual for. Façamos a prática tão incomum ao brasileiro de pesquisar, discutir e entender cada projeto de governo desenvolvido por essa bipolarização política, através de todo o tipo de informação que nos for disponível. Temos até o dia 31 de outubro pra fazermos isso.