O documentário lançado em 2010 sobre a crise econômica financeira de 2008, chamado Inside Job mostra algumas interessantes facetas sobre os porquês do surgimento, manutenção e perpetuidade dos motivos que nos levaram a maior crise econômica desde 1929. E o mais impressionante disso tudo é que as causas - mais que explícitas após o cume da crise em 2008 – continuam sem alterações, tanto nas determinações dos policy makers americanos quanto nas atividades desenvolvidas por bancos, seguradoras e agencias de risco.
O governo Obama, assim que eleito, tinha a missão de enquadrar as práticas do mundo financeiro que haviam sido desregulamentadas em Wall Street após os fatos mostrarem que houve grandes abusos dos big shots das finanças que agiram, influenciaram e demandaram por maior liberdade no mercado financeiro através de seus representantes inseridos nos governos de W. Bush e do próprio Obama. Infelizmente, o atual presidente falhou em obter uma grande reforma da regulamentação financeira devido aos grandes lobbbies formados por bancos, seguradoras e agencias de risco, obtendo somente uma reforma com pequenas alterações, reconhecidamente ineficiente para evitar a tragédia das conseqüências geradas pela da crise, como o aumento das taxas de desemprego nos EUA e Europa de forma abrupta e superlativa, a perda de ativos financeiros de investidores e poupadores comuns que acreditaram nos bancos americanos por todo o mundo, além do problema das hipotecas nos EUA, que gerou uma massa de cidadãos completamente endividados, sem casa e sem emprego.
Uma das tônicas interessantes que o documentário aborda e que é inquestionável é a inserção (novamente) de membros dessas grandes instituições financeiras, causadoras de toda a crise, em cargos-chefe do governo americano. Desde os anos 80, cargos como secretário do Tesouro americano, presidente do FED, secretário de finanças, entre outros, vem sendo ocupados repetidamente por grandes personalidades representantes das maiores empresas financeiras dos EUA. Logicamente isso gera um conflito de interesses entre as medidas tomadas por esses representantes do governo, que deveriam zelar por uma maior fiscalizam do mercado financeiro e suas atividades, e suas funções exercidas dentro das empresas que deveriam ser fiscalizadas pelos mesmos.
A conclusão a que se chega é assustadora por mostrar quem realmente direciona as ações tomadas pelos governos nos EUA, mesmo representando linhas políticas opostas. Os grandes financistas de Nova York determinam através de seu poder de barganha o que o estado americano fará ou deixará de fazer em relação à regulamentação do mercado financeiro. Isso soa panfletário, porém é uma simples constatação dos fatos ocorridos durante a última crise financeira e as anteriores do cenário recente (crise das empresas .com, Enron e etc.). Assim como em outros países (não estamos falando de Brasil aqui, não é?), o Congresso americano e o poder Executivo dos EUA se vêem totalmente influenciados e comandados pelos seus fortes lobbies, principalmente o do mercado financeiro. Apesar de todas as investigações iniciadas nos âmbitos do governo americano, nenhuma chegou a conclusões que levassem culpados a responderem processos e muito menos irem para a cadeia. Os diretores, ceo´s, cfo´s, chairmans continuam atuando da mesma forma no mercado, obtendo milhões de dólares em bônus e gratificações pagas por conseguirem aumentar os lucros de seus bancos, corretoras e demais empresas vendendo títulos ‘tóxicos’ que escamoteiam os grandes riscos envolvidos nos ativos originais.
Outro ponto espetacular do documentário mostra a ligação entre acadêmicos renomados das melhores universidades dos EUA e o mercado de Wall Street. Muitos deles foram (e são) contratados para escreverem artigos em favor das demandas de bancos, que na época pré-crise queriam uma maior desregulamentação do mercado financeiro. Os artigos escritos a época exaltavam as enormes vantagens dos derivativos financeiros, que transformavam títulos hipotecários em títulos vendidos por bancos de investimento a poupadores que nem sabiam ao que estavam atrelados os tais papéis. O argumento utilizado nos artigos era que o risco de mercado com a criação desses títulos estava sendo distribuído. Realmente o foi, levando milhões de pessoas pelo mundo ao desemprego e nações desenvolvidas a recessões sem precedentes e algumas a bancarrota. É vexatório saber que acadêmicos de algumas das melhores universidades do mundo se prestaram a este papel.
Como não vimos mudanças substanciais no circo que se transformou o mundo das finanças americano, podemos esperar no futuro por outras crises econômicas causadas por especulações financeiras. Os grandes culpados por fazerem milhões de pessoas ao redor do mundo perderem suas casas, seus empregos e sua dignidade continuam atuando livremente nas grandes firmas de Wall Street. Não há esperanças que isso vá mudar tão cedo.