domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra de moedas ou incoerências entre teoria e prática econômicas?


            Assistimos agora pelo mundo a corrida pela desvalorização de moedas, em uma tentativa dos países de conseguirem gerar superávits comerciais em seus balanços no “pós” (será?) crise financeira de 2008. No entanto, indo além dessa medida, alguns países que utilizam esse método para auferir ganhos não recomendavam tal medida como política a ser usada em suas cartilhas econômicas. Vemos como exemplo, os Estados Unidos emitindo freneticamente dólares para tentar reativar sua economia, medida sempre condenada por tal país na condução econômica recomendada mundialmente por seus policy makers mesmo diante de alguma crise econômica.

            A justificativa principal utilizada pelos EUA é a tentativa de sair da crise financeira que afetou visceralmente seu sistema econômico. Com alto nível de desemprego, baixo crescimento, e uma dívida pública explosiva, o país se mostra encurralado diante da crise passada e por ver aumentada sua dependência em relação a China, seu principal credor e um dos maiores importadores de seus produtos. O país ainda reclama da desvalorização artificial feita pela China em sua moeda, o que gera maiores déficits para os EUA que também são grandes importadores da mais variada gama de produtos chineses. Porém, os Estados Unidos sempre mantiveram o discurso de que seria irresponsável um país emitir moeda para tentar ativar uma recuperação econômica. É no mínimo interessante ver o grande difusor dos preceitos econômicos clássicos utilizarem-se da medida que os mesmos recriminam ao longo de décadas.

            As justificativas possíveis para o fato é o ambiente de crise econômica vivida hoje principalmente pelos países desenvolvidos. A quebra de instituições financeiras americanas ditas sólidas na crise passada assustou até os mais crentes no sistema financeiro atual. Ademais, na seqüência vieram a recessão econômica na Europa e as crises das dívidas, como da Grécia e do grupo dos PIGS.

             A diferença fundamental entre o posicionamento diante da crise de EUA e Europa são as medidas econômicas utilizadas. Enquanto na Europa pacotes de austeridade fiscal se proliferam entre seus integrantes, os Estados Unidos aceleram seus gastos e tornam sua taxa real de juros praticamente negativa com a inundação de liquidez em seus mercados. Onde estão os preceitos econômicos defendidos e não mais utilizados pelos EUA? O famoso ditado popular – “no ganho somos capitalistas e na perda somos socialistas” – parece ser a única moral da estória possível para a contradição entre a teoria e prática econômicas norte-americana.

            Enquanto as medidas de austeridade fiscal são utilizadas na Europa – o que reza a teoria Clássica, mesmo sabendo dos efeitos maléficos provocados (desemprego e recessão) -, os EUA se distanciam da lógica econômica clássica e tentam sair da crise com medidas reconhecidamente “keynesianas”. A questão da guerra cambial e as ameaças dos EUA à China neste respeito são meros blefes na tentativa de recuperação de sua economia e a manutenção da hegemonia mundial. Talvez seja o que restou aos norte-americanos como grito de sobrevivência pela liderança econômica que está sendo ameaçada pelo dragão chinês.

            Entendo que os EUA para ter maior sucesso em sua recuperação econômica precisam ter mais coerência entre a teoria e a prática no campo econômico. É fundamental um ajuste fiscal, como feito hoje pela Europa, na economia americana para dar confiança aos investidores daquele país na busca da recuperação de solidez econômica para que seja possível sua manutenção na liderança do ranking mundial. Parece que as ferramentas utilizadas – aumento de gastos e taxa de juros baixa – não vem surtindo o efeito desejado.